26.11.08

Nunca mais


O sol despenca

Com um ar calamitoso

No horizonte arbitrário

Da minha caverna escura

 A noite chega

e sinto falta de mim

 

Lembro de Cecília

Pois eu também não tinha este sorriso feio

 

As cicatrizes se espalham pelo meu rosto

Mas nem lembro mais dos cortes

das feridas

do sangue

das tantas dores

Nem mesmo dos arredores

de onde perdi a vida

 

Já não me lembro mais dos parques

Nem jardins da Prefeitura

 

Nem mesmo, sequer, me ocorre

Em que vaga criatura

Abandonei os temores

Que me mantinham pregados

Ás coisas todas do mundo

 

Já não sei mais em que corpos maliciosos

extravasei meus amores,

E já nem sei se eram mesmo amores

Ou vícios de humanidade

 

Lembro vagamente dos meus sorrisos

espalhados na cidade

Em cada porta havia

ao menos um sorriso meu

 

Amava em estardalhaço, eu sei

Berrando gozos fantásticos

Mas isso também se perdeu

 

A noite que chega agora

não me traz melancolia

E nem mesmo os fantasmas dos amores mais antigos

 

Tudo desaba

Mas é como

se nem tivesse existido

Um tempo qualquer

Anterior a esta noite

Em que o corvo boquirroto

Grita em meus ouvidos

A velha e triste sentença:

 

Ele me diz “Nunca mais”

 

Será mera coincidência

Ou o corvo da consciência

- Demônio ou ave preta –

Grita a todos os poetas

Este verso em tons reais

 

Volto ao vinho

para encarar as tramas

urdidas na noite eterna

que desce pelo horizonte

escuro da minha caverna

 

Fecho todas as janelas

Ignorando os umbrais

 

Conhecendo minhas mazelas

não preciso mais de um corvo

pra me dizer

nunca mais.

6 comentários:

Beatriz Oliveira disse...

Que belo! Não muito diferente dos meus, no cerne...
Bj

Vicente Portella disse...

Legal que vc tenha se identificado de alguma forma, Bia. valeu.

Beijão

conversaatrevida disse...

oiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii moço...

sabe que eu NÃO consigo chegar até aqui pelos seus comentários no meu blog? Peguei carona num comentário seu em outro blog...

a frase que mais me TOCOU foi "e sinto falta de mim.."

já senti isso algumas vezes, em vários momentos da minha vida.
Até no meu blog um tempo atrás eu tinha essa sensação...
Eu postava só sobre erotismo, sexo...mas apesar de serem temas que eu tenho PRAZER em falar (principalmente porque é um campo AMPLO e muuuuito desconhecido na sua totalidade, com seus fetiches, leis estranhas...desejos secretos...)
mas EU não falo só sobre isso, não leio só sobre isso, não me interesso SÓ sobre isso...
mas quando vc começa com uma coisa, as pessoas te rotulam...e quando vc SAI desse rótulo elas nem sempre entendem...

mas hoje to muito mais feliz falando de sexo e não sexo quando me dá vontade...E SENTINDO menos falta de mim online....rs

bitocas

Vicente Portella disse...

Valeu Atrê...

A gente é sempre um monte de coisas, nunca uma coisa só...

Beijão

Beto Gaspari disse...

É Véio! Continuas escrevendo pra todas as nossa almas. Que assim continue sendo, até que a noite escura nos esconda de uma vez as lágrimas, ou nos leve pra nunca mais.

Vicente Portella disse...

Valeu Beto...Mas as lágrimas vão secar e a terra do nunca mais vai demorar muito ainda pra nos alcançar.

Grande abraço