30.11.08

Arakén voou...junto com sete cantigas

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Meu terceiro pai morreu hoje.

Arakém Álvaro dominava muitas artes, sobretudo as plásticas, as gráficas e as humanas. Em duas décadas e meia - mais ou menos - de convivência aprendi com Arakén tanta coisa sobre vida que o acúmulo disso tudo hoje em dia até dói. Não pelo excesso em si, mais pelo fato de pouca gente ter tido tanto pra ensinar ao mesmo tempo.

Pintava coisas fantásticas. Mas do que pintar, porém, falava. E tinha sempre tanta coisa pra dizer que era impossível não ouvir.  E essa coisa impossível de não ouvir era fácil de constatar. Bastava olhar o mundo, avaliar as possibilidades para descobrir que Arakén tinha razão no que dizia.

Foi a primeira pessoa que vi se referir aos poderosos como seres menores. Tinha inclusive um jeito bastante especial de desconstruir a imagem de qualquer um daqueles mandões – generais, deputados, ministros, prefeitos, etc. -  que pululavam na época da ditadura militar. Era naturalmente genial.

Insurreto até a medula e iconoclasta por convicção, nos ensinou, a mim e a tantos outros amigos, a desconfiar daqueles que tem poder nas mãos, principalmente os ilegítimos.

De um modo geral, no entanto, apesar da forte convicção política, Arakén nos falou muito mais de amor a arte e a vida do que qualquer outra coisa. Por isso nos despedimos dele cantando. A canção foi  "Sete cantigas para voar" do Vital Farias, puxada pela Elaine Caldas e pelo Beto Gaspari. Ele adorava essa música, por isso foi voar com elas, as cantigas. A gente fica de olhos marejados ouvindo os acordes soarem livres no vento. A coisa nem aconteceu direito e já bate a saudade... putzzz

OBS: no vídeo, Tereza Cristina e grupo Semente,  no Teatro FECAP, em São Paulo, interpretando Sete cantigas para voar, música de Vital Farias

29.11.08

Stanley Netto em Designer Pop

Na quinta-feira, 27/11, o Bistrô Brasil foi palco de um belíssimo espetáculo. Stanley Netto e sua banda, com Luiz Carlos ( Baixo), Marcos Vasconcelos (Guitarra), Nélio Junior (Teclados) e Thiago Feghali ( Bateria), apresentaram o Show "Designer Pop". 
Mergulhando no que há de melhor no pop nacional e apresentando também musicas próprias, Stanley suavizou a saudade da turma, pois fazia muito tempo que o artista não se apresentava na cidade.
A platéia, onde vários amigos e parceiros do mundo cultural se misturavam à um público jovem que vem descobrindo aos poucos o talento de alguns artístas da cidade, aplaudiu de forma entusiamada o espetáculo. 
Stanley e sua banda então de parabéns pelo belo trabalho. E o Bistrô também. 


26.11.08

Nunca mais


O sol despenca

Com um ar calamitoso

No horizonte arbitrário

Da minha caverna escura

 A noite chega

e sinto falta de mim

 

Lembro de Cecília

Pois eu também não tinha este sorriso feio

 

As cicatrizes se espalham pelo meu rosto

Mas nem lembro mais dos cortes

das feridas

do sangue

das tantas dores

Nem mesmo dos arredores

de onde perdi a vida

 

Já não me lembro mais dos parques

Nem jardins da Prefeitura

 

Nem mesmo, sequer, me ocorre

Em que vaga criatura

Abandonei os temores

Que me mantinham pregados

Ás coisas todas do mundo

 

Já não sei mais em que corpos maliciosos

extravasei meus amores,

E já nem sei se eram mesmo amores

Ou vícios de humanidade

 

Lembro vagamente dos meus sorrisos

espalhados na cidade

Em cada porta havia

ao menos um sorriso meu

 

Amava em estardalhaço, eu sei

Berrando gozos fantásticos

Mas isso também se perdeu

 

A noite que chega agora

não me traz melancolia

E nem mesmo os fantasmas dos amores mais antigos

 

Tudo desaba

Mas é como

se nem tivesse existido

Um tempo qualquer

Anterior a esta noite

Em que o corvo boquirroto

Grita em meus ouvidos

A velha e triste sentença:

 

Ele me diz “Nunca mais”

 

Será mera coincidência

Ou o corvo da consciência

- Demônio ou ave preta –

Grita a todos os poetas

Este verso em tons reais

 

Volto ao vinho

para encarar as tramas

urdidas na noite eterna

que desce pelo horizonte

escuro da minha caverna

 

Fecho todas as janelas

Ignorando os umbrais

 

Conhecendo minhas mazelas

não preciso mais de um corvo

pra me dizer

nunca mais.

Noite sem lua


A noite anteontem

Me marcou os olhos

Com um negror terrível

De aniquilamento

 

 O homem nasce

Cresce

Constrói sonhos

Depois vira escravo

Da sina e do tempo

 

Já não me lembro

Mais

Onde meu quando

Se perdeu num se

Grotesco do caminho

 

Só me recordo

Vagos

Lábios frios

Como que açoitando

Textos em pergaminhos

 

Vivi a era

Em que as quimeras

Emprestavam as trevas

Farsas geniais

 

Olhos dourados

Tanta primavera

Versos espalhados

Borbulhando farras

Belas

Colossais

 

Hoje na rua

Me falta a aurora

O sol brilha opaco

A noite é sem lua

 

Não há mais quem chegue

Ou mesmo vá embora

Sem graves certezas

Expostas no olhar

 

Um pote de ouro

Por cada sorriso

Sem um arco-íris

Pra justificar

22.11.08

Ana de Amsterdam

Sou Ana do dique e das docas
Da compra, da venda, das trocas de pernas 
Dos braços, das bocas, do lixo, dos bichos, das fichas
Sou Ana das loucas 
Até amanhã
Sou Ana
Da cama, da cana, fulana, sacana 
Sou Ana de Amsterdam
Eu cruzei um oceano
Na esperança de casar
Fiz mil bocas pra Solano
Fui beijada por Gaspar
Sou Ana de cabo a tenente
Sou Ana de toda patente, das Índias
Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada
Sou Ana, obrigada
Até amanhã, sou Ana
Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos
Sou Ana de Amsterdam
Arrisquei muita braçada
Na esperança de outro mar
Hoje sou carta marcada
Hoje sou jogo de azar
Sou Ana de vinte minutos
Sou Ana da brasa dos brutos na coxa
Que apaga charutos
Sou Ana dos dentes rangendo
E dos olhos enxutos Até amanhã,
Até amanhã, sou Ana
Das marcas, das macas, da vacas, das pratas
Sou Ana de Amsterdam


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OBS - A foto lá em cima é da atriz Flávia Fernandes na pele de "Beatriz dos Anjos", espetáculo roteirizado e dirigido por Dani Francisco, com base no poema " A canção de Beatriz" de Ruy Espinheira Filho.

20.11.08

Aviso aos navegantes..

Neste sábado, 22/11, tem Show do Jorge Bodart no Galeto do Juca -  Av. Presidente Kenedy. Fica ao lado do Bradesco, em frente ao banco do Brasil, perto das Sendas e um pouquinho antes da Biblioteca Leonel Brizola. Com todas essas referências é impossível não encontrar.
O Show começa às 19 hs e a casa tem chope gelado a preço bom.
Quem estiver na Zona Oeste e quizer curtir o som de Bodart mais cedo um pouco, no sábado mesmo, pode ir ás 13 hs no Destilados Bar, dentro do Shoping Bangú.
E depois tem mais. Segunda no Shoping do Méier, Dias da Cruz, ás 19 hs. MPB da melhor qualidade e com auxílio luxuoso da banda Fusion.
 O que vale mais à pena nisso tudo é curtir o som de Jorge Bodart, um dos melhores profissionais do Rio de janeiro. Pode ir que é dica boa.

A bela canção de Elomar na voz aveludada de Francisco Aafa

O pidido 

Já qui tu vai lá prá fêra

Traga di lá para mim
Agua do fulô qui chêra
Um nuvelo e um carmim
Trais um pacote de misse
Meu amigo ah se tu visse
Aquele cego cantadô!
Um dia ele me disse
Jogano um mote de amô
Qui eu havéra de vivê
Pur esse mundo
E morrê ainda em flô
Passa naquela barraca
Daquela mulé reizêra
Onde almuçamo paca
Panelada e frigidêra
Inté você disse uma lõa
Gabano a boia bôa
Qui das casa da cidade
Aquela era a primêra
Trais pra mim vãs brividade
Qui eu quero matá a sôdade
Fais tempo qui fui na fêra
Ai sôdade...
Apois sim vê se num isquece
Quinda nessa lua chêa
Nós vai brincá na quermesse
Lá no Riacho d'Arêa
Na casa daquêle home
Feitecêro e curadô
Que o dia intêro é home
Filho do Nosso Sinhô
Mais dispois da mêa noite
É lubisome cumedô
Dos pagão qui as mãe isqueceu
Do batismo salvadô
E tem mais dois garrafão
Cum dois canguin responsadô
Apois sim vê se num isquece
De trazê ruge e carmim
Ah se o dinheiro desse!
Eu quiria um trancilin
E mais treis metro de chita
Qui é preu fazê um vistido
E ficá bem mais bunita
Qui Madô de Juca Dido
Qui Zefa de lô Joaquim
Já qui tu vai lá prá fêra
Meu amigo trais
Essas coisinhas para mim...

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18.11.08

Tesão é tesão e pronto...

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Brindemos

 

Um brinde as bocas beijadas na chuva

Um brinde as uvas

Aos seios

E aos ventres

Um brinde eloqüente

As coxas e aos braços

Um brinde ao amasso

Dos corpos convulsos

Um brinde às línguas

Aos dedos

As frutas

Um brinde a gruta

A mata

Aos lábios

Um brinde ao cheiro e a temperatura

Um brinde a natura, ao sabor, a umidade

Um brinde a verdade exposta na flor

Um brinde a cor, ao formato e a textura

Um brinde a postura

A porta entreaberta

Um brinde a secreta passagem, ao talho

Um brinde ao orvalho, ao suor, a cereja

Um brinde a quem beija

A pétala aberta

Um brinde ao botão

Um brinde as mãos

Um brinde aos olhos e aos diamantes

Um brinde aos amantes

Um brinde a paixão

11.11.08

O cheiro da madrugada

Tem dias, em que a noite confunde a gente.

O sujeito chega, puxa a mesa da bodega, se aconchega e, de repente, nem sabe mais por que águas a própria alma navega.

E a lucidez segue assim em interminável refrega com a pobre da insensatez.

O dia chega e diz não.

A noite, sopra um talvez.

Já a doida madrugada, feroz e destrambelhada, em completa embriaguez, diz: agora, meu amor.

E as pernas entorpecidas se arvoram em merecida e lúdica caminhada.

No meio da noite, a estrada, nem parece com a balbúrdia que se encontra de dia. 

É luz piscando nos olhos, botequins pelas esquinas, um certo ar de festejo, a boca aberta pro beijo, decotes, saias, meninas...

O cheiro delas escorrendo pelo brilho das estrelas, tomando o cérebro inteiro e impregnando as narinas.

A noite deveria ser algum tipo de canção dessas que nunca termina.

Com acordes absolutos penetrando pelos tímpanos e se apossando do espírito

ou algum tipo de verso majestoso e impenetrável. 

Algo assim inenarrável, um experimento empírico por sua essência, abstrato.

E a madrugada, não o dia, deveria ser seu quarto para acomodar os partos insanos da poesia.

6.11.08

Nasce uma nova era

Barak Obama é negro, mas é muito mais que isso. A simbologia racial é forte, porém, Obama foi muito mais longe. Diante de uma América destroçada pela ganância financista e belicista ele soube resgatar valores fundamentais para qualquer grande nação. Ao invés de pregar guerras e invasões, lugar comum para líderes americanos, pregou consciência e igualdade. Obama fez com que o mundo olhasse novamente para os EUA, não com olhos de quem odeia uma nação cruel, invasora e monopolista, e sim como quem busca uma saída para um processo político mundial enlameado por vícios e controlado por loucos.
Querendo ou não, os EUA influenciam o mundo. Quando o País mais rico e poderoso do planeta se apossa de outra nação, única e exclusivamente para lançar mão de suas riquezas naturais, como ocorreu no Iraque, o mundo começa a acatar a pilhagem como uma coisa lícita. Por outro lado, se a nação mais desenvolvida aponta valores humanísticos e culturais como prioritários, os outros Países também o seguem. É assim no Brasil, na América latina - onde o Brasil é referência - e é assim no mundo.
Desde Martin Luter King a América vem tendo sonhos de igualdade, sempre transformados em pesadelos por uma elite branca, cruel e endinheirada,  contra a qual o pastor negro manteve o dedo e a voz em riste. Como disse o próprio Luter King, os maus gritavam e os bons silenciavam. Essa lógica se espalhou pelo mundo, inclusive Brasil, alçando ao poder homens maus, incompetentes e descompromissados.
Não se pode dizer, é claro, que a era da estupidez e da mediocridade política tenha terminado. Mas o fato é que a nação líder do mundo conseguiu reverter um processo histórico de dominação e eleger um cidadão de origem humilde amparado em valores fundamentais completamente esquecidos, coisas como liberdade, igualdade e respeito aos direitos de todos. É importante frisar que nada na campanha de Obama foi fundamentado na boçalidade conservadora religiosa, pelo contrário. O discurso com essa tônica, vindo de uma mulherzinha tola do Alasca, foi sumariamente derrotado.
Torci para Obama e torço para que, junto com ele, venha um período de valorização da dignidade humana na política mundial. Para que o processo político volte a ser dirigido pelos mais qualificados, e não pelos mais "espertos", como acontece aqui. Torço para que a politiquinha do assistencialismo - muleta, dentadura, centro social pago com nossos impostos e coisas do gênero - seja definitivamente banida por esse vento inspirador que sopra da América.
Na verdade, creio que, como disse certa vez Vinícius, "a coisa não demora".
Lula, aqui, guardadas as devidas proporções e apesar da obsessão da turma do PT, e aliados, por cargos, maracutaias  e mordomias, representou um avanço nesse sentido. A vitória de Obama agora solidifica essa tendência em nível mundial.
Definitivamente o mundo quer algo novo. Algo que não seja podre nem baseado na podridão política. A humanidade, creio, está gritando por mudanças e elas estão ocorrendo. Os negros   e pobres espalhados pelo planeta vão agora se sentir no direito de exercer de forma mais ampla sua cidadania, sendo médicos, engenheiros, advogados, operários ou Presidentes de algumas repúblicas espalhadas pelo mundo. Li um texto sobre isso no Blg Leia junto (http://leiajunto.wordpress.com) , do Cesar Barroso e concordo plenamente.
Enfim, mundo reinicializado, estamos diante de uma nova era. Que venha a esperança e nos tire pra dançar.

1.11.08

Caxias é uma festa...

A revitalização cultural da nossa velha e boa Duque de Caxias vem rolando de vento em popa. Na quinta, dia 30, um belo espetáculo no teatro Raul Cortes homenageou a Lira de ouro e seus mais de 50 anos de história na cidade. O primeiro a se apresentar foi o Grupo Austeros Andantes, composto por uma garotada altamente talentosa, tanto em letra quanto em melodia. Creio que ainda vamos ouvir falar bastante neste grupo, pois a criatividade por eles apresentada é coisa rara e surgem, claro, como algo novo, porém, ancorado por uma sólida base inicial.
Depois dos Austeros foi a vez de Heraldo HB. Aliás, registre-se aqui: a apresentação do artista iniciada com a canção "Pedido" de Elomar Figueira de Melo, pareceu ter ocorrido com a intenção de deixar evidente para a platéia, desde o começo, de que ocorreria ali uma manifestação do belo. Algo deslumbrante. O repertório cuidadoso e lapidado de Heraldo HB deixou a galera em estado de graça.
Logo depois veio Beto Gaspari extremamente bem acompanhado. Ricardo Barbieri (Cello) , Roberto Brevilato (Violão), Stanley Neto (Sax, gaita e clarineta) e Carlinhos Lima (percussão). Essa turma que faz história na cidade já há algum tempo, emprestou brilho e emoção à um espetáculo belíssimo, com destaque para as canções "Feitiço" de Gaspari e Bravilato, e "Veia" de Gaspari e Barbieri.
O encerramento coube ao Grupo Nosso Canto, com Beto Cavaco, André Viana e cia. Samba de primeiríssima qualidade, como sempre. Poesia pura.
Como todo o tempo do mundo parecia ser pouco para curtir tudo o que acontecia, a turma, quase toda, deu uma esticada até o Bistrô, novo útero da cultura caxiense, estendendo o êxtase pela madrugada. 
Na Sexta-feira, ainda com saudades da quinta, fomos, eu e alguns amigos, ouvir Canthidio no Boitequim, um simpatissímo boteco que fica na Ouro preto, 105 - 25 de agosto. Praticamente começamos tudo de novo. Com o auxílio luxuoso do poeta Valdo Couto e canja do compositor Gentil Nogueira, Canthídio empolgou a clientela do bar e provou mais uma vez que a cultura Caxiense está de pé e à ordem.
Encerramos novamente no Bistrô, é claro. Melhor chope da cidade e convergência natural para os fazedores de cultura. 
O fato é que Duque de caxias anda respirando arte, e isso é muito bom. Pra todos nós.

OBS: Na imagem acima Canthídio em 3 tempos. No Boitequim e no Bistrô,  primeiro com Heraldo HB e depois em apresentação solo.