14.6.07

O mito da caverna

Vivemos um momento altamente tranqüilo. Há mensaleiros, sanguessugas, policiais ladrões, Deputados safados, governantes corruptos, empresários canalhas... Ou seja, tudo dentro da mais rotunda normalidade para os padrões brasileiros... E isso desde o império, atravessando as tantas repúblicas velhas e novas que antecederam a nossa atual ré-pública. Há, no entanto um espírito de desconsolo no ar. Leões rugem como se estivessem diante de algo novo, inédito, singular...
- Talvez a culpa seja minha ao analisar a coisa assim. Não sei se estou preparado para compreender a hipocrisia vigente. E olha que ela vige desde que Cabral ( o outro, mais antigo) pôs seus pés em terras brasileiras, mas sei lá, nunca me acostumei.
Só para citar governos existentes desde o momento em que minha pobre memória quarentona foi capaz de registrar, vivemos a ditadura, os governos Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique Horroroso e agora Lula. De todos, o único não “Doutor” é Lula. Rigorosamente todos os nossos governantes anteriores esquentaram com suas poderosas nádegas bancos acadêmicos e não apenas aqui, mas principalmente no exterior. Alguns, inclusive, certamente trouxeram das Havards da vida o costume arrogante de olhar o povo por cima e considerar ridícula, absurda ou “populista” qualquer formulação que não esteja plenamente dirigida a interesses estrangeiros ou de seus asseclas tupiniquins. E todos também, sem exceção, usaram a máquina pública como um mero depositário de fortunas a serem repassadas para as elites, inclusive familiares, seja por via direta ou indireta.
Como o hábito do cachimbo faz a boca torta, esse comportamento elitista e preconceituoso baseado na formulação de conceitos sempre lastreados por uma doutrina ou pensamento concebido e gerado em terras estrangeiras espalhou-se para todas as tendências ideológicas.
A mídia de um modo geral tem um papel fundamental na irradiação desta lógica. Desde o berço somos acostumados a idolatrar as coisas de fora, principalmente dos EUA, e vamos absorvendo como se fosse nossa a cultura deles. As distorções se agigantam de tal forma que chegamos a comemorar um tal “Dia das bruxas” que não tem sequer significado para nenhum de nós, e, como conseqüência, vamos deixando de lado a nossa própria forma de pensar; vamos cortando aos poucos nosso cordão umbilical. E não há nessa afirmação nenhum arremedo de xenofobia, mas uma simples constatação. Desacostumamo-nos, na verdade, a pensar com a nossa própria cabeça. Se “O globo” diz que o papa é ladrão, pedras ao papa. Se o “SBT” diz que tal novela é boa, odes a novela... E por aí vai... Todos os dias imensas cortinas de fumaça são colocadas diante de nossos olhos e as aceitamos sem pestanejar. Em suma: vivemos o mito da caverna, de Platão. Acreditamos no poder de sombras, em miragens e nem sequer questionamos isso. Tornamos-nos, de um modo geral, meros reprodutores da versão oficial estabelecida pelos órgãos de comunicação sem perceber que se trata na verdade de um círculo vicioso.
Tudo isso gera em nós uma espécie de fúria iconoclasta restritiva, pois ao mesmo tempo em que somos encorajados a destruir nossa própria imagem no espelho, vamos também absorvendo outras que não são nossas e nem se assemelham a nós. E pior, vamos adotando como referência os donos dessas imagens, permitindo que eles se tornem tutores da nossa cidadania. Acabamos, enfim, aceitando como correta a opinião de um jornalista que, ganhando 1 milhão de dólares por mês, assume uma posição ardorosamente contrária ao aumento de alguns reais no salário mínimo por conta de um pseudo risco ao equilíbrio da previdência. Não nos ocorre em nenhum momento que tudo não passa de uma grande falácia. Não se pode investir o dinheiro público em melhorias para o povo senão vai faltar para os empreendimentos privados. Se o governo gastar dinheiro em escola, aumento de salário, saúde, educação, CULTURA e etc. não vai ter como retirar bilhões do BNDES para financiar empresas de comunicação. É simples assim.
Chega a ser hilário, na verdade. Aqueles que assaltam os cofres públicos com a conivência de governantes e que enriquecem a sombra do erário são, desafortunadamente, também aqueles que nos incutem a máxima de que o poder que advém do voto é podre, corrupto e danoso... Transformam tudo em algo tenebroso diante dos nossos olhos para que tenhamos aversão ao poder e nunca queiramos exercê-lo.
É como se um seleto grupo de apreciadores de chope, por exemplo, estabelecesse uma terrível campanha contra a bebida, ressaltando todos os seus malefícios e inventando um amontoado de outros tantos, como estratégia para inviabilizar a concorrência.
Na verdade, onde há poder, infelizmente, há corrupção. E a única forma de reduzi-la é aumentar ao máximo o número de pessoas que o exercem este poder, ou seja, trazer o poder de verdade para as mãos do povo, e isso se faz de várias formas, mas a base de tudo, ao contrário do que dizem, é a CULTURA.
Um cidadão culto não se permite ser usado como massa de manobra nem fica vomitando conceitos designados pelas elites. Um cidadão culto não renega sua história, sua vida e sua arte para adotar a de outros. Um cidadão culto sabe que o mundo não é perfeito e não advoga sua perfeição, mas sim sua evolução. E acima de tudo sabe que só o andamento natural do processo social é capaz de consertar os erros e purgar os defeitos.
Lugar de corrupto é na cadeia, é verdade, mas só ao povo cabe, não apenas esta retórica, mas também a estipulação dessa sentença.


Vicente Portella

Um comentário:

Paullo disse...

Acredito que haverá o momento em que vou acordar deste sono triste e, ao lado de pró-ativos poderei retirar o Véu de Ísis, que encobre, anula e vicia esta nação Rubrotricolordemaltafoguense com seus inúmeros Fast-fodas que entorpecem a individualidade de ser e pensar como quero e como sou.
Valeu Portela! Grande guerreiro!