28.2.11

Dilma, a generala x Polícia Federal

O abafamento da operação Guilhotina, confesso, me pegou de surpresa. Não votei em Dilma, é claro, mas como ela adotou a postura de Generala da honestidade, achei que a coisa carregasse alguma seriedade.
Na época da operação caixa de pandora  ocorreu a mesma coisa. Metade da estrutura do poder foi pega com a boca na botija no Rio de janeiro, mas o “cumpanheiro” Lula mandou abafar tudo. Agora, no entanto, a coisa foi muito mais grave. Pessoas que detinham postos chaves na estrutura da Secretaria de segurança eram, comprovadamente, chefes de quadrilha, e alguns ainda davam-se ao luxo de atuar em duas estruturas distintas, Governo do Estado e Prefeitura.
Quando começaram os primeiros movimentos para abafar o caso, pensei comigo: Dilma é a primeira mulher presidente da república. Ela não vai desmoralizar o discurso de gênero só para encobrir as maracutaias milionárias e criminosas de seus aliados.
Ledo engano. Tanto o superintendente da PF quanto o delegado que chefiava a operação foram mandados para a Sibéria sem o menor escrúpulo e a operação que prendeu delegados e escancarou o esquema de corrupção na segurança do Rio foi para as cucúias, sendo finalizada em menos de quinze dias sem deixar rastros nem transtornos para os aliados de Dilma no Rio de janeiro.
Nunca antes na história desse país a corrupção gritou tão alto nos nossos ouvidos, gargalhando da nossa cara, que nós, cidadãos, não passamos de um bando de idiotas encarregados de pagar as contas. Eles, Dona Dilma e seus amigos, não rasgaram apenas a constituição, o código penal e a ética, mas destruíram também qualquer esperança de seriedade pelo menos para os próximos 4 anos. É como a canção do Chico: Aquela esperança de tudo se ajeitar, pode esquecer.
Na verdade inaugura-se no Brasil uma nova era, onde o crime passa a ser permitido desde que cometido por autoridades públicas afinadas politicamente com o poder estabelecido. Talvez se crie até um novo paradigma para a educação das crianças, ensinando-os daqui pra frente que roubar, traficar, miliciar, prevaricar, tudo isso é crime, exceto quando quem pratica é governante.
A impressão que me fica é que a formação de quadrilha agora é institucional, bancada pela própria Presidente da República que demonstrou agir com rigor contra qualquer pessoa de bem, inclusive delegados da PF, que tente coibir tal prática.
O sentimento que se tem é o de liberou geral. Sinceramente, quando ouvia falar dos jeito de ser severo da generala Dilma achei que fosse uma severidade voltada para o outro lado, o lado do bem. Infelizmente, no entanto, é o contrário do que eu imaginava. A presidente é muito severa sim, mas só com aqueles que consideram a lei acima das maracutaias políticas. Essas pessoas, como ficou provado no episódio da operação guilhotina, a generala não perdoa, manda pra Sibéria imediatamente.
Se continuarmos assim, com o comportamento legal invertido e o congresso de cócoras, daqui a pouco todos aqueles que forem contra o mensalão, o tráfico, as milícias e as roubalheiras em geral serão presos e exilados.
Finalmente, só posso considerar que vivemos uma aristocracia invertida, pois somos governados pelos piores quadros de que a sociedade dispõe.

22.2.11

Evoé Stanislaw

As vezes fico me perguntando se o Brasil tem jeito... Cada vez mais vislumbro no horizonte do País o texto “Nulidades”, de Rui Barbosa, aquele em que ele diz que o homem, em determinadas circunstâncias, sente vergonha de ser honesto, lembra?
Hoje, 22/2, li coisas nos jornais que me deixaram ainda mais desanimado à respeito do futuro do Brasil.
Primeiro foi sobre aquele delegado, Cláudio Ferraz. Levantaram a hipótese, completamente estapafúrdia, de não ser dele a assinatura nos documentos que mandam abrir investigações em Prefeituras do Rio e depois mandam cancelar tudo sem que nada tivesse sido investigado. Segundo o que eu soube, já existem até gravações com cabeças coroadas do poder Fluminense dando ordens para que as investigações fossem suspensas. 
Como podem, agora, depois de tudo confirmado, alegar uma bobagem dessas. Fica parecendo uma tentativa de passar liquid paper em uma enorme mancha de batom estampada em uma cueca. Chega a ser surrealista isso, tentar livrar a cara do delegado só porque ele é homem de confiança do Secretário.
A outra notícia estarrecedora eu li no Radar on line, da Veja. O superintendente da Polícia Federal do Rio, Angelo Gioia, está sendo defenestrado para Roma como forma de abafar a operação Guilhotina, aquela que pegou a cúpula da polícia do Rio com a boca na botija. 
Ao invés de prenderem os bandidos – no caso os poderosos assessores de Cabral que atuavam como chefes de quadrilha em benefício de facções criminosas ligadas ao narcotráfico – deporta-se o “mocinho”, o delegado da PF responsável pela devassa.
O mais grave é que não é a primeira vez que isso ocorre. Quando rolaram os escândalos de Brasília, Arruda à frente, a PF montou a chamada operação Caixa de Pandora 2, que tinha como objetivo descortinar as cabeludíssimas relações dos governantes do Rio com o dinheiro público. Sendo ano eleitoral, no entanto, nosso querido ex presidente Lulinha paz e amor decidiu abafar tudo. A exposição da corrupção no Rio poderia “atrapalhar” a eleição de Dona Dilma, então resolveram deixar tudo pra lá. Foi como se o Governo Federal dissesse: Podem roubar à vontade. Agora, com o possível “remanejamento" do xerife da PF do Rio, a história se repete, infelizmente, como tragédia, mais uma vez.
Essas coisas todas me dão a nítida impressão de que no Brasil, literalmente, vale tudo. Basta ser amigo dos poderosos para se ter o direito de roubar merenda de criança, pensão de velhinhos, drogas e armas de traficantes e tudo mais o que houver disponível. O Brasil, em escala macro, e o Rio, no micro, são terra de ninguém. A lei que vigora aqui é a lei do cão. Manda quem pode e obedece quem tem juízo, simples assim.
Isso tudo me faz lembrar uma velha máxima do genial Stanislaw Ponte Preta – ou Sérgio Porto – o homem que escreveu o FEBEAPÁ – Festival de Besteira que Assola o País: ou nos locupletemos todos, ou restaura-se a moralidade.

16.2.11

Lei seca, quente e escura... Pobre Baixada.

Tal e qual a Chicago dos anos 30, a Baixada Fluminense experimenta os horrores de uma lei seca. Na terra de Al Capone, no entanto, a secura se limitava a bebidas alcoólicas, aqui a secura é completa. Não há água nem para fazer remédio.
Como se não bastasse a falta d'Água e o calor, cuja a sensação térmica atinge 45°, falta também energia. A Light, concessionária privatizada na década de 90, trata os moradores da Baixada como se fossem lixo, apesar de cobrar contas caríssimas. 
A impressão que se tem é que a Light fez um planejamento para a baixada com base no vagalume: Acende/apaga/acende/apaga. Do ponto de vista da moderna sustentabilidade a coisa é até legal, ecológica etc, mas do ponto de vista da qualidade de vida é um absurdo. A empresa que detém o monopólio do abastecimento de energia em parte da Baixada desrespeita completamente seus clientes. 
As quedas no fornecimento de energia e as variações de tensão são tão absurdas e frequentes que beiram a ficção. Ventiladores e ares condicionados, quando não queimam de vez, ficam simplesmente impossibilitados de funcionar, agravando ainda mais os efeitos da falta d água e do calor insuportável. 
Trata-se de um escárnio, como se aqui fosse terra de ninguém.
Além da correlação entre água e álcool, há uma outra questão que faz com que a Baixada se pareça cada vez mais com a Chicago de outrora, os gangsteres.
Toda a penúria que vivemos aqui esta associada com a necessidade que alguns de nossos governantes tem de ganhar dinheiro fácil, pois, ao invés de representar as pessoas e defender os interesses da cidade, eles preferem negociar benefícios pessoais. 
Dia desses, por exemplo, um Deputado de Caxias foi ao departamento de água da cidade acompanhado de um grupo de moradores do terceiro distrito. Queria enganar o povo, é claro. Mesmo sabendo que nossa água da cidade é produzida fora, na estação do Guandu, o Deputado arvorou-se à uma discurseira contra os gerentes locais da empresa concessionária, muito provavelmente para tentar impressionar as pessoas que o acompanhavam. Macaco velho, o Deputado sabia muito bem que os problemas eram causados pela cúpula, não pela base. Mas não podia perder a chance de jogar para a galera. 
Deputados assim, que poe a culpa no operador para poupar o governante, são do mesmo tipo daqueles que não levantam a voz contra a Light, nem contra as irregularidades das empresas de ônibus, nem contra os governos que nos marginalizam e se aliam a bandidagem, enfim, são parasitas sociais que se alimentam do sangue da sociedade.
Esses políticos inescrupulosos, que felizmente não são todos, são os arautos do nosso atraso e principais promotores do nosso infortúnio. Se nossas torneiras estão secas e não temos energia elétrica nem mesmo para amenizar o calor que nos sufoca é graças a essa gente que negocia nossos direitos em benefício próprio.
A Baixada merece mais respeito, mas para que isso ocorro a gente precisa se respeitar primeiro, e, claro, escolher representantes mais dignos.


Vicente Portella

14.2.11

Duque de Caxias: Uma cidade refém do medo

Agora já se sabe, oficialmente, que a tal operação policial do Alemão e da Vila Cruzeiro foi uma grande patuscada. A Polícia Federal provou que tudo não passou de um baita jogo de cena e que os policiais do Rio subiram o morro simplesmente para praticar pilhagem e vender o espólio de guerra à outros bandidos. O que não se sabe, ou pouco se sabe, é o inferno que a tal operação causou em outras áreas, outros Bairros e outras cidades.
Aqui em Duque de Caxias a favela da Mangueirinha, no Centenário, virou uma filial do Morro do alemão. Os bandidos que antes aterrorizavam lá vieram para cá, provavelmente escoltados pelos policiais que fazem sua segurança, e transformaram a vida do cidadão comum em um caos generalizado.
O Bairro Olavo Bilac, que até bem pouco tempo era um local tranqüilo e familiar, vem sofrendo diretamente as conseqüências dessa migração patrocinada pela cúpula da polícia do Rio.
Nos últimos meses a simples atividade de andar nas ruas do Olavo Bilac se tornou uma aventura perigosa, pois os bandidos agem com total liberdade e com requintes de arrogância. As pessoas estão sendo assaltadas na porta de casa e, sob mira de armas pesadas, tem seus pertences roubados. Até seqüestros já ocorreram nos últimos dias, com marginais roubando o carro da vítima e as obrigando à passar em caixas eletrônicos para sacar dinheiro.
Na verdade, a grosso modo, Duque de Caxias, em particular o Bairro de Olavo Bilac, está pagando a conta da corrupção generalizada da polícia do Rio.
Não vivemos mais aquela era “romântica” em que o policial da esquina exigia uma propina de quem tivesse alguma irregularidade no seu carro. Hoje os acertos são feitos diretamente na cúpula da polícia e no atacado, com policiais sento destacados por poderosos para fazer a segurança de traficantes. O fato é que aquele policial corrupto que vivia de expedientes à 15/20 anos atrás, hoje é subsecretário, superintendente ou coisa parecida,  sendo poderoso o suficiente para liberar ataques a população em troca de dinheiro, favores e vantagens pessoais.
O fato é que somos reféns de um medo patrocinado pela Secretaria de segurança pública. Não se trata de um bando de bandidinhos roubando galinhas, mas de uma quadrilha organizada e liderada por quem deveria proteger a sociedade.
O mais terrível de tudo é que, assim como os policiais corruptos da cúpula da Secretaria de segurança, nossa imprensa também se mantém muda por dinheiro. Deve ter algo a ver com aquela canção do Caetano: “A força da grana que ergue e destrói coisas belas”.
Na prática, a imprensa que se omite é tão corrupta quanto o dirigente policial que rouba armas e drogas de um bandido para vender à outro.
O fato é que somos reféns tanto do poder público quanto da mídia, ambos corruptos. 

25.1.11

Maria Bethania - O quereres

A voz da alma humana

Não sou muito de assistir a GNT, o canal é altamente moderno e eu às vezes ainda me atrapalho com essas coisas da modernidade extrema, mas ontem a GNT reprisou um programa de 2006 sobre Maria Bethânia. Não resisti, confesso. Foram duas horas de relógio pregado diante da TV. Na verdade nem percebi que estava com tanta saudade daquela voz avassaladora, daquela interpretação mítica, daquela musicalidade tão profana e tão sagrada ao mesmo tempo.
Bethânia canta o amor, todo mundo sabe, mas canta também a dor, a ousadia, a vida, as cores e tudo mais que há de bom espalhado pelo planeta. Ela é toda sentimento. Sua voz na verdade, se fosse algo visível e palpável, poderia ser definida como um gráfico da capacidade humana de sentir, em todos os sentidos.
O Brasil sempre foi rico em arte e cultura. Passearam pela nossa história artistas fantásticos que salpicaram em nossas almas suas obras geniais e é nesse panteão, onde brilham e coabitam todas as estrelas, que se pode dizer: Maria Bethânia é demais.
As canções se soltam de sua garganta como se estivessem sendo libertas do cativeiro, como se a voz fosse um meio físico para transportar as notas, sons e murmúrios  para um mundo melhor, para o paraíso da sonoridade.
E Bethânia fala, canta, sussurra, sugere, impõe, debate com seus músicos, disserta sobre Chico, Caetano e Gil, ouve embevecida, a mãe, Dona Canô, dando aula sobre como viver a vida... Tudo acachapantemente belo e maravilhosamente distante daquela perfeição técnicista e robotizada. Belezas e não belezas humanas emanam de cada canção que sua voz liberta. Purificando o subaé e, pelo menos no coração de quem escuta, mandando todos os malditos embora.
Evoé Maria Bethânia !

24.1.11

STF: vítima de ditadura por vontade própria

Já faz algum tempo que eu venho defendendo a tese de que o Brasil está retroagindo e que isso se dá em vários aspectos. Moral, dignidade, política, administração pública, instituições... Tudo vêm desmoronando terrivelmente diante dos nossos olhos e não fazemos nada. Quando a ditadura foi implantada pela força a gente até reagiu, mas agora, quando uma nova ditadura é implantada pelo poder de convencimento dos poderosos, a gente se cala e acaba até achando tudo muito bonitinho.
Li na Folha de São Paulo hoje que o STF, a Suprema corte brasileira, passou a usar uma codificação especial, baseada nas iniciais dos nomes, para proteger os poderosos que “eventualmente” estejam sendo investigados. Se houver algum processo contra o Lula, por exemplo, o código pode ser LILS, ou LIS, ou coisa parecida. Na prática, nenhum mortal como tem mais o direito de saber se algum homem público responde processo no STF e muito menos o porquê de tal processo.
Não satisfeito com implantação do sigilo de injustiça, o nosso nobre Ministro Peluzo proibiu também qualquer cidadão de ter acesso à informações processuais. Mesmo advogados, agora, para conhecer o teor de um processo precisa se cadastrar e contratar os serviços de uma empresa que VENDE uma senha de acesso inspirável em 30 dias. Maravilha, né? Nosso judiciário, tantas vezes defendido por agressões sofridas nos tempos da ditadura, inventou para si próprio a autocensura com objetivo de agradar aos poderosos.
Nada prova de forma mais escancaradamente o aparelhamento que nossas instituições vem sofrendo. E pior, o aparelhamento chegou ao STF. Se a própria Suprema corte se permite, de bom grado, a profanação de um dos fundamentos mais elementares da democracia, que é a publicidade dos atos, e, consequentemente dos processos, a quem mais poderemos recorrer? Trata-se da coroação do retrocesso, de uma ode ao atraso, da mediocrização do poder público.
O fato é que, pela nova orientação POLÍTICA  do STF, eu, você que me lê e qualquer outro mortal comum, em caso de processo judicial, pode ficar exposto à toda sorte de especulações, mas os poderosos não. Para eles há uma codificação especial par que suas excelências não sejam incomodadas na hora de responder por seus atos públicos. É com se a nação fosse um corpo humano e o princípio democrático só tivesse valor legal do pescoço para baixo. A cabeça estaria completamente impune a questionamentos para que pudesse se manter impune.
Na verdade Peluzo não revogou apenas o principio da publicidade, mas também o da imparcialidade para a suprema corte brasileira. A partir de agora é oficial, a justiça trata os poderosos com uma mão e os mortais comuns com a outra. Uma tem o hábito da carícia, outra, o do chicote. Você pode imaginar qual delas é dedicada a nós, pobres e despossuídos de poder ( por usurpação).
Que Deus tenha piedade de nossas almas...

12.1.11

A tragédia lucrativa

Vivemos uma época em que não há mais estadistas. Eleitores menores e urnas eletrônicas adestradas elegem governantes igualmente menores, imbuídos mais do senso de “oportunidade” do que de qualquer outra coisa.
Nesse sentido, tudo passa a se transformar em “oportunidade”, não para realizar, construir, resolver problemas da população ou colocar seu nome na história. A “oportunidade”, para nossos governantes se resume à questão monetária. Dinheiro, grana, bufunfa, faz-me rir, cascalho, ou como queira chamar cada um dos cultos assessores que os cercam.
Recentemente os governantes do Rio de Janeiro, Governador Cabral e seus aliados em variadas prefeituras, perceberam uma fonte inesgotável de oportunidades: as chuvas de verão.
O primeiro a transformar as águas do Rio em “oportunidade” financeira foi Eduardo Paes, Prefeito do Rio, cancelando todas as obras de dragagens, limpeza e desobstrução de Rios, bueiros e canais. Quando chega a chuva a cidade vira o caos, então o Prefeito ganha a “oportunidade” de contratar todo e qualquer serviço sem licitação, ou seja, pode pagar 1 milhão à empresa de algum amigo pelo aluguel de um bote salva vidas por algumas horas e ninguém pode reclamar de nada. A lei o garante.
O esquema deu tão certo que Paes o exportou para Prefeituras controladas por partidos aliados e a coisa virou uma mina de ouro, proporcionando tragédias colossais ano após ano e fazendo a felicidade dos governantes.
Lembro que quando Marcelo Alencar era Prefeito a limpeza de bueiros e canais para evitar enchentes era muito debatida. Saturnino Braga havia falido a Prefeitura e não havia dinheiro nem para a merenda dos estudantes, mas Marcelo deu um jeito de bancar as desobstruções para evitar enchentes. Durante o período Cesar Maia a coisa também caminhou tranquilamente, com investimentos em encostas para evitar tragédias.
Nas cidades do interior do Estado e mesmo da região metropolitana nem se falava nisso. Era raro ocorrer algo mais drástico do que uma enchente provocada pelo transbordamento de um Rio.
Mas a coisa agora virou moda. Nas cidades praieiras e serranas há uma combinação entre liberação para construções irregulares para ricos – como foi o caso do Luciano Huck em Angra – e o completo abandono das galerias e canais de escoamento das águas fluviais. Pronto. Simples assim. As tragédias são iminentes, mas os lucros também são vastos e garantidos.
Na verdade é uma pena que o Rio de janeiro, espelhando-se em picaretas que governam em esfera nacional, tenha se transformado nisso. Uma mera central de negócios.
Logo após o fim da ditadura militar dizia-se que o Rio de janeiro tinha um povo lúcido e politizado... O que será que acabou tão rapidamente com a lucidez desse povo?

Vicente Portella

11.1.11

Água de beber... para a Baixada Fluminense

A história se repete todo ano: chega o verão e as pessoas que moram na Baixada vivem o desespero da falta d’água. Isso se dá por dois motivos básicos, aumento de consumo e estabelecimento de prioridades.
Quase todo o abastecimento da Baixada é feito pelo sistema Guandu, que atende toda a região metropolitana e, apesar de ter sua estação de tratamento na Baixada, tem como foco maior o abastecimento da capital do Rio de janeiro.
Nossa cidade, Duque de Caxias, recebe água de 3 sistemas. As represas de Xerém e Mantiquira cobrem cerca de 15% da distribuição e o sistema Guandu entra com os outros 85%. Quando chega o verão, no entanto, o sistema se torna caótico.
Historicamente o abastecimento de água da capital passa pela baixada desde o começo do século passado, mas, naquela época, não existia nenhuma demanda. A população pequena e os rios limpos garantiam o atendimento das necessidades de água com tranqüilidade, mas hoje o que prevalece é o drama de uma população imensa sem atendimento.
O problema de abastecimento de água da Baixada, no entanto, pode ser resolvido plenamente antes do próximo verão. A coisa depende apenas da nossa capacidade de exigir as obras corretas para que isso ocorra.
Existe um projeto do Engenheiro Flávio Guedes, especialista em saneamento e meio ambiente e também ex-Diretor de operações da própria Cedae, capaz de, tecnicamente, resolver o problema pelo menos para os próximos 30/40 anos.
O lago da represa de Ribeirão das Lages, em Piraí, tem volume de água disponível para que se faça uma linha exclusiva visando o atendimento da demanda de água da Baixada Fluminense. Para isso bastam apenas alguns estudos sobre a necessidade ou não da construção de uma estação de tratamento específica e o assentamento de tubulações para trazer essa água até os reservatórios locais e distribuída-la a população.
Falando assim pode parecer um projeto simples, mas é complexo, muito complexo, e tem um custo, cerca de 300 milhões de reais. Este seria o preço aproximado do fim do nosso sofrimento pelo menos no que diz respeito ao abastecimento de água tratada. Se a gente considerar que só a reforma do Maracanã vai custar  aos nossos bolsos mais de 1 bilhão de reais, não se trata, nem de longe, de uma missão impossível.
Se tecnicamente, no entanto, o projeto para matar a sede da população da Baixada é plenamente viável, politicamente a história é outra. Teríamos que superar nossas limitações e fazer com que a sociedade da região, além das lideranças políticas, comprassem o projeto. Teríamos que estabelecer uma relação entre os Prefeitos e Vereadores da região que estivesse muitos decibéis acima da mera conveniência política e partidária. Teríamos que adquirir, entre nós, uma consciência coletiva capaz de superar os inúmeros obstáculos que nos afastam e lutar por uma causa comum, a qualidade de vida e a dignidade das pessoas que moram em nossas cidades.
Considero que Duque de Caxias, por ser a cidade mais importante da região, tem todas as condições do mundo para convocar, imediatamente, formuladores, técnicos, líderes políticos e sociedade em geral para debater e defender um projeto assim, que vise atender a Baixada, dando a população água de beber, um elemento essencial à vida e a dignidade humana.

Vicente Portella  

30.12.10

Alemão: a versão que virou fato.

Sinceramente, eu ando preocupado com a credibilidade da nossa imprensa. Nos últimos anos o jornalismo foi substituído pela publicidade, tudo bem. Afinal de contas, manda quem paga - essa é uma regra básica do sistema capitalista - mas a coisa também não pode ser assim, tão escancarada. Mesmo porque, omitir os fatos é algo muito diferente de  distorce-los, que por sua vez também é completamente diferente de inventa-los. Nossa mídia atual é assim, inventa fatos.
Apesar dessa mancebia entre mídia e governantes – a mídia é a amante – ocorrer em todas as áreas, é na segurança que o vil metal tem sido aplicado com maior eficácia pelos governos e onde a mídia, por sua vez, tem demonstrado maior talento e criatividade.
A encenação do morro do Alemão é um belo exemplo disso. Até o mais néscio dos eleitores é testemunha de que as forças de segurança ficaram acampadas por horas a fio no entorno do morro enquanto os bandidos ganhavam o mundo. Via-se pela TV que os policiais estavam agoniados, ávidos por fazer seu trabalho, mas os “cabeças “ da segurança não permitiam. Só depois de ter a absoluta certeza de que todos os bandidos estavam à salvo, em outras favelas do Rio, Beltrame e cia permitiram a invasão e o maior complexo criminoso do Rio de janeiro foi “conquistado” em meia hora. Foram inclusive apreendidas algumas armas utilizadas na 1º guerra mundial, além de estilingues, bumerangues, tacapes, arcos e flechas, muitas flechas. Nenhuma arma de "destruição em massa", o que prova que cada governo mutreteiro tem o Iraque que merece.
Tudo isso aconteceu com cobertura ao vivo da mídia, como se fosse uma partida de futebol, ou uma novela, e comentado por um roteirista de cinema. 
Foi uma espécie de Tropa de Elite 3 em tempo real, pra usar uma expressão consagrada pela internet...
Apesar disso tudo, na versão oficial da mídia tratou-se de uma verdadeira guerra, digna de Rambos, Capitães Nascimentos, Shuarzenegeres e até Charles Bronsons, este último para os mais antigos. Na prática, o fato foi substituído por uma versão, a oficial, e a farsa foi proclamada como história. Que os bandidos acuaram o Rio por uma semana, é fato. A tomada do Alemão, no entanto, é outro papo. Tudo, na verdade, foi muito estranho...
Mas tudo bem, isso já tem um mês. De acordo com a mídia o Alemão anda tão fantástico que várias celebridades já estão pensando em fixar residência no morro. Até o Príncipe Charles, da Inglaterra, o nobre mais orelhudo do planeta, já foi cogitado para futuro morador do Alemão juntamente com sua partner, Camilla Parker.
Quando li os jornais hoje nem pensava mais nisso, eis que, de repente, não mais que de repente, me deparo com uma matéria dizendo que a polícia invadiu a Rocinha e os bandidos não reagiram traumatizados com o que ocorreu no Alemão. Alto lá, aí já é um pouquinho demais... Até a estátua do Drumonnd, em Copa, sabe que o tal do NEM, mandão da Rocinha, é amigo de cama e mesa do povo do PMDB. A eleição na favela teve até chapa exclusiva do tráfico com o aval de todos os cardeais do partido, governantes do Rio de Janeiro. Quem tá dizendo isso não sou eu, foi a própria imprensa – ou uma pequena parcela dela – quem disse, durante a campanha eleitoral. E sendo assim, carne e unha, alguém acha que haveria tiroteio? Quantas armas prenderam lá? Cá pra nós, isso não parece um baita jogo de compadres?
Eu, pobre mortal, fico achando que a nossa nobre polícia ganhou uma função a mais: fazer segurança para os vendedores de drogas do Rio de Janeiro. 
Os verdadeiros profissionais de segurança – policiais militares e civis – devem estar fulos da vida com esse esquema, mas, sinceramente, parece que a cúpula do Governo do Rio virou sócia da boca com o apoio da mídia, que deve ter um percentual grande das ações nesse mega negócio.
Só por isso o binômio UPP/ Alemão está tão presente na nossa gloriosa mídia. Trata-se de uma variação da parceria público privada criada no Rio de Janeiro. Todo mundo sai ganhando e quando der algum bode o Governo será outro. Aí a imprensa pode desancar todo mundo, apontar dedo na cara, inventar demônios e culpados, tudo numa boa.
Até lá o Alemão será a panacéia capaz de curar as dores terríveis provocadas pela sede de grana dessa turma. Além do mais, daqui a pouco a galera nem lembra mais disso tudo, né?

27.12.10

A posse do poste, quer dizer, da Dilma.

Lula precisava provar ao mundo o quanto é popular e, para tanto, elegeu um poste. Não satisfeito, mesmo que o poste ainda nem tenha tomado posse, já defende a reeleição desse mesmo poste em 2014. Está provado, Lula é o cara. Mas o que me chama a atenção nessa história toda são as coisas que Lula fez, os modelos que adotou e os princípios dos quais abriu mão para se tornar o cara.
Na década de 80 do século passado Lula criticava ferozmente a corrupção, hoje, convive com ela numa boa e até reinventou alguns de seus conceitos. Na década de 90 do século passado Lula questionava a manipulação da opinião pública via meios de comunicação, atualmente, partilha seu poder com todos os manipuladores históricos dessa mesma opinião pública. Nos anos setenta, também do século passado, Lula condenava o autoritarismo, hoje o cultiva.
Aliás, nos anos 90, é bom que se diga, Lula já começou a descambar para o outro lado do tabuleiro. Fez até reuniões secretas com FHC no palácio presidencial apesar de fingir publicamente que era de oposição. Mesmo assim, no entanto, Lula continuou "revendo seus conceitos". Se antes considerava um absurdo que líderes populares ignorassem o PT em função dos votos obtidos nas urnas, hoje Lula advoga o poder plebiscitário e a extinção de adversários, o que não deixa de ser uma coisa curiosa, para se dizer o mínimo.
A verdade é que Lula nos transformou em reféns do voto. Não me refiro ao voto bom, digno, democrático, eivado de cidadania, mas sim ao voto de cabresto, aquele do favor, da imposição, do coronelismo, da violência, do assistencialismo, da cesta básica e do bolsa família, que ele mesmo criticava antigamente e que atualmente rege, sem qualquer cerimônia, os processos eleitorais pelo Brasil afora. Somos reféns desse voto, que é, na prática, o pior que existe.
Infelizmente, no entanto, Lula se orgulha desse voto, assim como se orgulha de seus novos parceiros, gente como Sarney e Collor. O presidente chegou até a dizer dia desses que não entende os questionamentos neste sentido, pois quem elegeu Sarney e Cia foi o povo. Quem quiser, portanto, que reclame com o povo.Lula disse isso, assim. Com a cara mais dura do mundo, comprovando aquela máxima de que quando se quer conhecer um homem deve-se dar poder à ele. O mais triste é que uma boa parte das pessoas que cultivam estes questionamentos aprenderam a faze-lo com o próprio Lula, no tempo em que ele era operário e de oposição.
Mas enfim, não se deve chorar sobre o chope derramado. O importante agora é descobrir, o Pais inteiro, como sair desta terrível armadilha montada pelos tutores do poder absoluto. Como fazer com que a nação brasileira se desenvolva de verdade, sem mudar as regras do jogo na hora de fazer as contas, sem anexar ninguém a classe média por decreto, sem mentir, pelo menos não descaradamente, impondo às pessoas uma maravilha inexistente.
Particularmente creio que só uma democracia de verdade, onde as pessoas possam se manifestar de verdade e a sociedade possa escolher de verdade seus dirigentes, pode nos oferecer alguma solução. Não dá mais para permitir que manipuladores nos confundam quanto à direitos e deveres, pois sabemos que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.
Voto é direito, não dever. Ninguém pode ser obrigado a entregar seu voto à candidatos que não valem o ar que respiram. Ninguém pode ser escravo da vontade alheia nem ser obrigado a legitimar processos dos quais discordam. 
Defendo que o Brasil adote o voto livre, ou seja, o voto facultativo, como verdadeiro instrumento de libertação do país. Até porque gente não é gado e as pessoas não podem ser obrigadas a atravessar a vida referendando a vontade alheia.
Quanto a Dona Dilma, o poste do Lula, lhe desejo boa sorte no mandato, é claro. Jamais torceria pelo mal de uma nação inteira. Mas confesso que não alimento qualquer expectativa diferente de mensalões, mensalinhos e acordões para aumentar salários e demais vencimentos de asseclas de toda a sorte. 
Tomara que eu esteja errado.

22.12.10

A grande patuscada

Ando com uma baita pena do Adolfo Bloch, falecido dono da Manchete, que deve estar se revirando no túmulo por conta da inversão do principal slogam de sua revista: Aconteceu, virou manchete.
Nos dias de hoje, em que o jornalismo definitivamente perdeu para a publicidade sua importância e sua capacidade de direção das redações, tudo ocorre ao contrário do que deveria. Os “fatos” são antecipados e mesmo que não ocorram, ou que pelo menos não tenham ocorrido ainda, são tratados como “fatos”.
Qualquer pessoa pode constatar isso lendo os jornais do dia. Geralmente não há uma só notícia, de fato, estampada nas manchetes de primeira página. Todos os governos foram transformados em brilhantes e os governantes, sempre muito generosos com os departamentos publicitários da mídia, são sempre exemplo de sucesso e correção, verdadeiros modelos a serem seguidos.
A saga do morro do Alemão é um bom exemplo disso. A polícia se postou nas entradas, deu tempo de sobra para a bandidada fugir - cerca de 24 horas – e acabou dominando o “impenetrável” reduto do tráfico em duas horinhas, sem prender quase ninguém. Até as armas apreendidas se resumiram a meia dúzia de peças enferrujadas, mas a cobertura jornalística determinou que tudo ali foi lindo e maravilhoso. Mesmo que todas as outras favelas do Rio de Janeiro estejam tomadas por bandidos, sejam traficantes ou milicianos, nossa gloriosa mídia dá como resolvida a questão da violência no Rio de Janeiro. Meia dúzia de UPPs e uma batalha de Itararé foram suficientes para servir de alicerce para a proclamação do que não houve, a pacificação do Estado. Mas a mídia não perdeu a oportunidade de escolher seus heróis: Sérgio Cabral ( que só vem ao Rio quando está distraído) e Lula ( o defensor dos frascos e comprimidos ).
Nos últimos anos a tranferência de recursos públicos para as empresas de comunicação foi tão gritante ( Lula gastou 10 bilhões com publicidade em oito anos e Cabral 500 milhões em seis meses ) que os Governos nem precisam mais de diários oficiais, já que os jornalões fazem cobertura adocicada de tudo que os governantes pedem, embora estes ainda se dêm ao luxo de reclamar de vez em quando. O presidente Lula, por exemplo, considerando pouca a adulação da mídia, criou o grupo de “blogueiros progressistas”, internautas bem situados que são regiamente pagos para utilizar seus blogas em defesa dos interesses governamentais. Muita gente boa que era estrela mas ficou desempregado na grande mídia está liderando esse processo, pois a boca é rica e a generosidade infinita. 
Mas enfim, o Governo de Lula, que apesar das críticas que merece foi um bom presidente em vários aspectos, está acabando, e aí vem Dilma, que é desde já uma incógnita. Ne verdade, desde Itamar Franco, passando por FHC e chegando a Lula, o Brasil vem caminhando bem em vários setores. Os três últimos presidentes foram líderes experimentados, eleitos pelo voto e responsáveis por vários processos políticos antes de se elegerem Presidente. Dilma, não. O fato é que seremos governados nos próximos anos pela Governanta de Lula, uma senhora que nunca se expos ao voto nem nunca assumiu compromissos públicos com quem quer que seja. Sua única fidelidade, largamente testada até aqui, foi à caneta do chefe de ocasião. Nunca deu uma ordem de fato, no máximo, às repassou para o andar de baixo. Nunca correu riscos nem assumiu responsabilidades públicas por seus atos... ou seja, estamos mergulhando em uma noite escura.
Certamente a mídia falará muito bem de Dilma, pelo menos enquanto durar a cornucópia financeira. Resta-nos torcer, e apenas isso, para que a vaidade de Lula não nos custe o naufrágio de um País inteiro. Quem viver ( ou sobreviver) verá.


OBS: Ciro Gomes se recusou a ser Ministro. Pode ser transformado em inimigo nº 1, como ocorreu com Garotinho, que recusou o Ministério dos transportes em 2002.Foi de aliado a demonizado em pouquíssimo tempo

Vicente Portella

15.12.10

TRE-RJ e Cabral: flagrante delito

“Não se trata de questão de direito, mas de investigação. Salta aos olhos a transgressão ao devido processo legal. Temos algo que não apenas arranha o devido processo legal, mas fere de morte.”

Ministro Marco Aurélio Mello.

O TSE devolveu, ontem, a dignidade ao processo político do Rio de janeiro, mas ficaram seqüelas gravíssimas. A afirmação do Ministro Marco Aurélio Mello transcrita acima desnuda o TRE-RJ e expõe a conivência, o compadrio; a verdadeira sociedade estabelecida entre executivo e parte do judiciário em nosso Estado para garantir a reeleição de Sérgio Cabral.
Fica clara a atuação do TRE-RJ como braço político do Governo executando a tarefa de tirar do páreo eleitoral o mais forte opositor do atual mandatário.
Nem cabe aqui uma defesa política propriamente dita do ex Governador Anthony Garotinho, mas do processo eleitoral em si e da causa democrática, do direito que as pessoas têm de eleger seus candidatos, direito esse assegurado pela constituição.

A cidade de Campos passou dez anos mergulhada em um profundo lodaçal corruptivo sem que nenhuma voz tenha se levantado para cobrar uma posição pública da quadrilha instalada no poder daquele município, mas bastou Rosinha ganhar as eleições para que todos os olhos do poder se voltassem para a maior cidade do Norte Fluminense. Cabral sabia que ali estava o embrião de uma futura campanha de Garotinho. Um bom Governo de Rosinha significaria a retomada do processo que levou o casal ao poder na década de noventa.
Veio a primeira vitória dessa nova fase e imediatamente, assim que Garotinho lançou seu nome como possível candidato a sucessão de Cabral, começaram as agressões.
Não apenas se apegaram à ações risíveis, como uma mera entrevista de rádio, como também atropelaram todos os processos legais possíveis para decretar o afastamento da Prefeita e a inelegibilidade de Garotinho.
Não satisfeitos, TRE-RJ e Governo estadual financiaram um verdadeiro massacre nos meios de comunicação, comparando Garotinho a figuras nefastas da política brasileira, gente como Maluf, Sarney e Collor. Por mais que se tentasse esclarecer os fatos – como eu e vários outros companheiros tentamos via internet – tornou-se impossível enfrentar a rede de agentes pagos com dinheiro público para espalhar mentiras e agressões. Uma verdadeira covardia.
Pois bem, a justiça foi feita e o TSE corrigiu os descalabros e desmandos patrocinados por TRE-RJ e Governo Cabral, mas fica uma pergunta no ar: quem vai pagar pelo terrível prejuízo causado à democracia no Estado do Rio de janeiro? Será que os instrumentos corretivos do poder judiciário vão agir no sentido de punir o uso de instituições – Tribunais, MPs, Estado - para fins políticos?
Certamente o Rio de Janeiro terá a oportunidade de retomar o fio de sua história, se recuperando dos danos e prejuízos que esta aliança espúria entre Executivo e parcela do judiciário promoveu, no entanto, seria muito vem ver os responsáveis por isso tudo respondendo por seus atos. Seria bom para a democracia, para a credibilidade das instituições, para o Rio de janeiro e para o Brasil.

Vicente Portella


9.12.10

Sarney: o novo homem forte do PT

Há coisas para as quais não existe explicação: os mistérios da vida, os segredos do universo, os desígnios de Deus, o hipopótamo e o ornitorrinco, enfim, uma infinidade de coisas. Outras no entanto nem exigem reflexão tão profunda, pois são explicadas pela simples noção de safadeza política.

Passei a vida ouvindo Lula e o PT detonarem os Sarney. A palavra mais carinhosa que petistas de norte a sul do Brasil dirigiam ao dono do Maranhão era LADRÃO. Quem tem mais de 35/40 anos lembra disso. A impressão que se tinha era a de que o PT e seus red caps odiavam a oligarquia sarneysista. Parecia-me até, confesso, que o PT odiava todas as oligarquias. Mas o tempo, que, dizem, é senhor da razão, mostrou que a coisa não é bem assim. Quando se trata de exercer o poder o PT tem todo o talento do mundo para defender o indefensável.

Se alguém dissesse nas décadas de 80 e 90 que os governos do PT teriam Sarney como principal sustentáculo, corria o risco de ser crucificado em praça pública. Os red caps eram nervosos, bufantes, radicais e agressivos. Todas as lideranças de “direita” eram, por eles, associados ao Demônio. Assim mesmo, com tintura religiosa e tudo. Lula era uma espécie de Jesus operário que traria a redenção do povo brasileiro. Inventaram até “intelectuais” petistas que reescreveram teorias e teologias sob encomenda para defender a “causa” partidária.

Pois bem. Com o passar dos anos a coisa foi se mostrando bem diferente daquela discurseira toda. Os “inimigos” atualmente já não são tão nocivos assim, muito pelo contrário. Fernando Collor, quem diria, se transformou em um “valoroso companheiro” e Sarney hoje é tão influente nos governos petistas quanto Lula. Só não se sabe qual está no céu e qual está na terra, mas ambos são venerados e estão cada vez mais parecidos um com o outro.

Dona Dilma, a funcionária de Lula alçada ao cargo de estepe do Presidente da República, anunciou esses dias parte do seu ministério e, creiam, só deu Sarney. 

O poder do God painho é tanto que até Deputado do baixo clero virou Ministro - Um de “seus” Ministérios não era lá grandes coisas, então Sarney mandou um cambono, o que só reafirma a quase soberania de Sarney no atual governo.

Episódios assim servem para nos deixar cada vez mais atentos em relação aqueles grupos radicaizinhos que aparecem por aí vez ou outra, geralmente oriundos da classe média e não muito afeitos ao trabalho. A história está nos mostrando que, depois de um tempo, consagrados como alternativa, eles assumem o poder e se mantem nele “ad eternum” fazendo aliança até com o próprio Demo, se necessário. Se alguém reclamar eles culpam o povo, como fez Lula...

Quem quiser que brigue com o povo, que elegeu Sarney e Tiririca. Eu não tenho culpa.



Se há algo que não se pode negar, nessa história toda, é a capacidade camaleonicamente política do PT em termos de fisiologismo. Quando todos apostavam que acabariam com isso, eles reinventam o conceito de ética e passam a dar aulas da matéria. São professores, não há dúvidas. Mesmo que seja da matéria mais putrefata da história brasileira.

2.12.10

O assassinato oficial da liberdade ou: A DITADULA

Lula deixa o poder oficialmente em dezembro, mas ficou bem claro, hoje, que continuara dando as cartas no próximo governo. Em entrevista para rádios comunitárias, que funcionam como satélites do PT, o Presidente disse com todas as letras que o próximo Ministro das comunicações terá a tarefa de intervir na mídia, controlando a imprensa brasileira. 
Curiosamente, Lula e o PT foram, no decorrer dos anos, escandalosamente beneficiados pelos meios de comunicação no Brasil. 
Quando ainda era um ilustre desconhecido - um mero grevista do ABC - a imprensa, por meio de milhares de profissionais simpatizantes do PT, se mobilizava para dar alguma notoriedade à Lula, o nordestino que falava errado e representava uma “ameaça” para a ditadura. Para garantir a sua presença no segundo turno das eleições de 1989, inclusive, a TV Globo criou até personagens para novelas, com uma abordagem romântica, é claro, impregnados pela doutrina petista. 
Foi a imprensa a grande responsável pela gigantesca popularidade que Lula desfruta hoje. Mesmo diante de derrotas achapantes, a mídia sempre insistiu em outorgar-lhe uma auréola de injustiçado, de pobrezinho, de operário ingênuo que poderia ser o redentor dos pobres e miseráveis do País. Mesmo durante seu mandato a imprensa sempre foi benevolente com Lula, mesmo porque, se agisse de outra maneira, o atual presidente não resistiria a comparações com seus antecessores, por mais simples e simplórias que estas fossem. 
Se Getúlio deixou a industrialização do País e as leis trabalhistas, se JK deixou Brasília e a modernização da economia; se Itamar Franco restaurou a dignidade politica e Fernando Henrique, juntamente com o próprio Itamar, nos legou a estabilidade financeira e social, Lula, por mais popular que seja, não deixou absolutamente nada como legado. 
Por mais que a imprensa o adule, não há um só elemento que se possa admitir como marca do Governo Lula, exceto a corrupção escancarada e o aparelhamento do Estado. Algum petista apaixonado, e muito bem pago, pode até bater no peito e falar do PAC, mas o fato é que este, um mero conjunto de obras, não saiu do papel no Governo Lula e provavelmente não saíra também no Governo de sua empregada. 
Talvez nem 20% das ambições iniciais tenham sido executadas, por mais que a imprensa se “esqueça” de abordar esse tema. 
Em todas as áreas do Governo, Lula simplesmente deu continuidade ao trabalho de outros presidentes. Na economia, manteve a linha FHC; no social, seguiu Itamar; na arte de faturar cada ponto positivo, seguiu Getúlio... E assim, atravessou 8 anos sem identidade própria de governo, apesar de ter sua personalidade cada mais cultuada pela mídia. 
Todo os espaço midiático negado a Brizola, Arraes e outros tantos líderes brasileiros, foram dados de mão beijada à Lula. Mesmo assim, no entanto, o Presidente não está satisfeito. 
Ao que tudo indica teremos em breve uma liberdade tutelada. Sempre que alguém quiser publicar alguma coisa terá que pensar duas vezes, ponderar se o governo concorda ou não com tal matéria, artigo, ou mera expressão de opinião, para só então decidir se vale a pena publicar. 
Já vivemos um período assim, entre 64 e 85 do século passado, que se convencionou chamar ditadura. Nos dias atuais, é evidente, a coisa vai ser feita de forma diferente. Com sorrisos, ao invés de cassetetes, e com aprovação dos “representantes do povo” no congresso nacional. 
A grande pergunta que fica no ar é se a mídia em geral vai aderir ao conceito de “Mídia comunitária” e ficar caladinha em troca de generosos patrocínios ou se vai, de alguma forma, espernear, protestar ou até lutar contra o assassinato oficial da liberdade no Brasil. 
Quem cala, consente. Já diz o velho ditado. 


Vicente Portella 

29.11.10

De volta ao mundo real...

A retomada do morro do Alemão pelas tropas policiais foi um espetáculo e tanto. Talvez até entre para história como a primeira guerra sem confronto que se tem notícia desde o começo das eras. 
Diziam os “especialistas” que havia 600 bandidos armados até os dentes no topo daquele morro, tão temido nos últimos anos, e tido como inexpugnável, mas, por incrível que pareça, apenas uns poucos bandidos foram presos. Nem 10% do total previsto. 
Ficamos quase 48 horas ouvindo histórias fantásticas sobre as táticas militares e o poder de fogo dos bandidos e no final das contas, depois de tudo acabado, apareceram apenas algumas espingardas de atirar em compadre. As armas apreendidas não lembram nem de longe aqueles poderosos fuzis ostentados pela bandidagem em tantas e tantas reproduções televisivas. Na verdade, as armas de ontem pareciam mais restos da primeira guerra mundial. 
Apesar disso, no entanto, mesmo que frustrante do ponto de vista das prisões e apreensões, considero importantíssima a retomada do Alemão. Só fico me perguntando: e o resto? 
O tráfico continua senhor absoluto em cerca de 150/200 favelas do Rio de Janeiro, algumas, inclusive, famosíssimas, como Rocinha, Maré, Mangueirinha, etc. Em outras tantas, principalmente na Zona Oeste, quem manda é a milícia. O que estamos comemorando, então? Um primeiro passo? Tá legal, concordo. Se estamos empolgados apenas com a “descoberta” da nossa capacidade de reagir, maravilha. Nos basta então direcionar esta descoberta para dar prosseguimento ao combate. Mas se alguém acha que uma ação exitosa no alemão representa a vitória definitiva da sociedade contra a bandidagem, nesse caso estamos mal. Muito mal. 
Hoje é segunda feira. Passaram pouco mais de 24 horas da tal batalha do Alemão e a coisa continua “brabíssima”. 
Conversando hoje cedo, via internet, com uma amiga que trabalha em Inhaúma, descobri que lá o pânico e o medo continuam na moda. Tiroteio ainda é comum e helicópteros continuam assustando as pessoas. Fora do entorno do Alemão, portanto, tudo continua como dantes no quartel de Abrantes, sem qualquer motivo aparente para promover a “refundação” da cidade, como quer o Prefeito. 
Passado os efeitos alucinógenos da intervenção midiática, que transforma a dor real em obra de ficção, seria muito bom se as pessoas voltassem ao mundo real, colocassem os pés no chão... A vida não é filme para ser definida pela orientação de roteiristas e coreógrafos. A vida é algo mais complexo. 
Na verdade a guerra ainda não acabou, e, pelo menos na maior parte da cidade e do Estado, o fato é que ela nem começou ainda. O povo do Alemão tem todos os motivos do mundo para comemorar, mas o restante de nós, mortais comuns, ainda é refém da violência e da bandidagem. 

10.11.10

A bolinha de papel mais cara do mundo: 2,5 bi.

O Lula é um cara muito generoso. Deu um dinheirinho considerável para o Haiti, perdoou as dívidas de vária ditaduras africanas com o Brasil e agora deu mais 2 bilhões e meio de presente ao Sílvio Santos, o homem do baú, para socorrer seu banco, o Panamericano. 
Menos da metade dessa grana resolveria o problema de água da Baixada Fluminense ¹, mas Lula, na condição de Presidente altamente popular, com 345,33% ² de aprovação nas pesquisas, não precisa se dar ao luxo de atender a demanda de abastecimento de água do Zé povinho, então pode jogar dinheiro avanço entre seus aliados e amigos. Afinal de contas o dinheiro não é dele mesmo... 
Mas porque Lula daria tanto dinheiro para Sílvio Santos? É de se estranhar que alguém que prega intervenção estatal nos meios de comunicação seja tão condescendente com um de seus proprietários. Mas a campanha do segundo turno explica bem isso. 
SS e Lula tiveram um papinho reservado durante a campanha - quando SS disse que tentou vender uma Tele Sena para o Presidente - e logo depois disso o SBT suspendeu o debate que estava marcado entre Serra e Dilma. 
Naquele momento, a candidata do Presidente claudicava, perdia forças e era questionada por vários segmentos da sociedade por conta algumas de suas históricas posições políticas. Dilma tremia à cada encontro com Serra, perdia a linha, agredia e chegou até a defender de maneira velada sua amiga Erenice, insinuando que as acusações contra ela eram “armação” da imprensa. 
Logo depois de suspender o debate, quebrando um galhão e tanto para a escalafobética candidata, o SBT fez uma cobertura inacreditável da agressão sofrida por Serra no Rio de Janeiro, resumindo a ação das brigadas mussolinistas do PT à uma mera galhofa, uma bolinha de papel. Foi o SBT quem proporcionou ao Presidente da República, não apenas a minimização da atitude fascista de seus companheiros, mas, acima de tudo, a oportunidade de culpar a vítima e até a tentativa de negar o ataque. Lula deve realmente ter ficado muito grato ao “cumpanheiro” SS.³ 
Agora, passadas as eleições e com a vitória assegurada, entende-se a posição de Sílvio. Ganhar 2,5 bilhões de reais só pra suspender um debate e expor o adversário do Presidente ao ridículo é bom demais. Coisa simples e lucrativa para empresários da estirpe de SS. 
Certamente foi a bolinha de papel mais cara do mundo, mas e daí? Quem tá pagando a conta é o Zé povinho mesmo... E se alguma coisa der errado no novo Governo, a NeoCPMF já está na fita. Será uma bela reserva em caixa para situações semelhantes. 
A brigada fascista do PT pode ficar tranquila, o que não vai faltar é patrocínio para suas ações. 



1 – Esgoto, habitação, transporte... essas coisas então nem se fala. 
2 – Apesar de ter eleito sua ungida só aos 48 do segundo tempo e à duras penas. 
3 – É bom lembrar que logo depois, no debate da Globo, as regras e até o formato foram mudados para evitar o confronto que tanto prejudicava Dilma.