5.2.09

Amor tecendo

O amor tecia redes

Na cadeira da varanda

Muito longe

Em Uganda

Ou talvez em Bagdá

Bombas explodiam a esmo

Eu mastigava um torresmo

Gostoso

De Arrozal

E nem reparava o mau

Subindo

Pelas paredes

Pegajosas do congresso

Imaginava algum verso

Despido de majestade

Um poema levezinho

Pra se ler durante a tarde

Com a cabeça recostada

No colo nu da amante

Mas que poema qual nada

Um trem passou nesse instante

Arrastando de uma vez

Os sonhos tolos que eu tinha

Vou à casa da vizinha

Vasculhar todo o seu sono

Pra compor poemas novos

Nos veremos qualquer dia

Arando com outros sonhos

Esta terra fugidia



OBS:Fiquei algum tempo pensando se deveria postar esse vídeo em português, com o MPB4, ou em castelhano, com o Silvio Rodrigues, seu autor. No final das contas optei pelo MPB4. Em portugues da pra perceber melhor a beleza dessa letra.

Quando a ouvi pela primeira vez fiquei imaginando como poderia Silvio Rodrigues amar no espaço - Minha (eter) na morada
Belos versos, bela canção. Tudo altamente valorizado pelo talento do MPB4.
Na gravação original em portugues uma parte da letra é cantada em castelhado. Segue a letra aíem baixo pra quem quizer conferir.

Por Quem Merece Amor 
Musica e letra de  Sílvio Rodriguez


Te perturba esse amor?
Amor de juventude
Meu amor é amor de virtude
Te perturba esse amor?
Sem máscaras por trás
Meu amor é uma arte de paz
Te perturba esse amor?
Amor de humanidade 
Meu amor é amor de verdade 
Te perturba esse amor? 
Com todos ao redor 
Meu amor é uma arte maior 
Meu amor, minha prenda encantada 
Minha eterna morada 
Meu espaço sem fim 
Meu amor não aceita fronteira 
Como a primavera 
Não escolhe jardim 
Meu amor, não é amor de mercado 
Esse amor tão sangrado 
Não se tem pra lucrar 
Meu amor é tudo quanto tenho 
E se eu vendo ou empenho 
Para que respi-ra- a- a- ar 

¿Te molesta mi amor? 
Mi amor de juventud 
Y mi amor es un arte en virtud
 ¿Te molesta mi amor? 
Mi amor sin antifaz
Y mi amor es un arte de paz
 ¿Te molesta mi amor? 
Mi amor de humanidad
 Y mi amor es un arte en su edad 
¿te molesta mi amor?
Mi amor de surtidor 
Y mi amor es un arte mayor 

Meu amor, alivia e acalma 
É o remédio da alma 
Pra quem quer se curar
Meu amor é humilde é singelo 
E o destino mais belo 
É torná-lo maio- o- o- or 
Meu amor, o mais apaixonado 
Pelo injustiçado 
Pelo mais sofredor 
Meu amor abre o peito pra morte 
E se entrega pra sorte 
Por um tempo melho-o- o- or 
Meu amor, esse amor destemido 
Arde em fogo infinito 
Por quem merece amor...

30.1.09

Não sois máquinas. Homens é que sois...

Essa tal de crise econômica que anda abalando o planeta tem me feito pensar em muita coisa. Nos últimos dias então, sem internet por conta de uma mudança de endereço, refleti muito sobre essa coisa toda. Sem internet, a gente acaba vendo TV. Não há como evitar. E vendo TV toma-se contato com todo o lodaçal da indústria cultural misturado com as milhões de mensagens subliminares difundidas pela mídia. Se fossemos levar em consideração tudo que a mídia prega acho que nem sairíamos de casa. Mas enfim, em nosso tempo o medo é uma bela ferramenta de contenção evolutiva. E se o jogo é jogado e o lambari é pescado, temos que entrar no jogo nem que seja só pra sobreviver. Para tanto, declaro solenemente: tenho medo da dengue, da guerra, da AIDS, do tráfico, da polícia, da bala perdida, da enchente, da frente fria e de tudo o mais que me mandarem ter medo. Pretendo ser um rapaz bem comportado daqui pra frente. Mesmo que minta um pouquinho.

Mas como eu disse lá em cima, andei pensando bastante. E não há nada melhor para embalar pensamentos do que um bom papo com bons amigos, uma boa leitura, um bom filme, boa companhia...coisas assim.

Eu abusei dessas coisas nos últimos dias. Acabei sofrendo uma overdose da mais legítima sensação de otimismo. Verdade. Quando se olha o mundo do jeito que ele é a gente tende a pensar que já era. Que estamos no fim dos tempos. Mas quando se olha para um ponto futuro, para como seria se nossos governantes e nossa sociedade não fossem tão toscas, a coisa pode ser capaz de nos surpreender. Da até para acreditar que é possível mudar o rumo da prosa.

Só pra vocês não pensarem que eu estou viajando, publico aí em baixo, depois de uma briga terrível com a minha conexão, o último discurso de um filme de Charles Claplin: O grande ditador.

Certamente o planeta estava mergulhado no caos naquele momento, mas Chaplin conseguiu juntar os cacos e fazer de seu primeiro filme falado uma obra de arte eterna e de impacto fulminante. O mundo inteiro tomou uma espécie de injeção de adrenalina na veia quando assistiu à esse filme. E o resultado geral até que foi bastante interessante. Até algum tempo atrás, pelo menos.


21.1.09

Quem é esse cara?

Antes de 2007, sinceramente, eu nunca tinha ouvido falar em Barak Obama. Esse homem americano, negro, inteligente e sério que surgiu como um furacão, atropelando líderes políticos históricos dos EUA e acabou se tornando o homem mais poderoso do planeta, era até bem pouco tempo um desconhecido para o mundo inteiro. No entanto, nunca, em momento algum da história recente, nenhum líder político cativou tantas pessoas e encheu de esperança tantos corações.

Na verdade nada anda tão desgastado quanto a credibilidade política, aqui e no mundo. Acostumamo-nos a tratar a política como algo que não é para ser levado à sério, até porque o cenário político mundial tem sido palco para fanfarrões, debilóides e picaretas de todos os tipos. No Brasil, por exemplo, temos um Presidente da República altamente popular e que, comparado a seus antecessores, pode ser considerado um bom Presidente, no entanto, nada mais escapa. Partidos medíocres no poder e na oposição, Ministros, Governadores e Prefeitos completamente despreparados e descompromissados com seus cargos e com a coisa pública, Senadores, Deputados e Vereadores que não servem nem como peso de papel, enfim, um cenário dantesco. E em outros países a coisa não tem sido diferente, inclusive no primeiro mundo. A Inglaterra de Tatcher à Blair cuspiu na cara do planeta, provando que imbecis podem exercer o poder. Os próprios EUA, com Bush, um Severino Cavalcante piorado, deixaram bem claro que, literalmente, qualquer um pode chegar ao poder em uma democracia sem precisar, para tanto, ser muito mais inteligente que um Dromedário. E creio que exatamente este cenário horroroso tenha sido o principal responsável pela ascensão de Obama.

Havia no ar, espalhado pelo globo, certo consenso de que nada mais poderia ser feito para dignificar o exercício da atividade política. Qualquer um de nós, quando perguntado, dava a causa como perdida.

Fazíamos isso por uma razão muito simples: descrença. Nada parecia ser capaz de nos dar expectativa. O “deus” mercado parecia ter substituído definitivamente o Estado, transformando-o, como em qualquer mercado, em um balcão de negócios.

Eis que de repente, não mais que de repente, surge uma nova mentalidade. Novamente torna-se a crer na política como uma atividade digna. E não me refiro especificamente a Obama. Não creio que ele seja nenhum Deus surgido para resgatar a dignidade no mundo, não é isso. Creio, na verdade, que Obama teve o mérito de acreditar. E mais que isso, nos fazer acreditar também. Seu mérito na verdade não é ser negro, nem jovem, nem inteligente, nem capaz. Seu mérito é nos faz acreditar que ainda é possível a existência de gente de bem na política e que nós podemos, sim, conforme seu slogan de campanha, fazer a diferença e mudar os rumos de uma história.

Talvez tenha pesado na convicção pétrea de Obama o fato de ter uma formação protestante, atividade que por lá costuma ser usada com instrumento de organização política e social, apesar de, como aqui, ser também um magneto atraindo embusteiros e exploradores.

O fato é que Obama é o cara que pode mudar o mundo. Basta que seu exemplo seja seguido, que pessoas consideradas do bem ocupem espaço real no cenário político, para que isso ocorra. Seria bom para o mundo e bom para o Brasil.

Em Brasília, por exemplo, temos 513 Deputados. Destes, apenas uns 30/40 podem ser considerados pessoas sérias e de bem. Imaginem se a proporção fosse invertida, o quanto seria bom para todos nós?

Pois é, creio que Obama teve esse mérito, declarar ao mundo que é possível ser melhor. E exatamente por isso ganhou credibilidade em escala planetária.

Pode ser que seu Governo, iniciado hoje, nem seja tão bom assim. Pode ser até que as altíssimas expectativas depositadas nele se frustrem. Pode ser que nada do que se espera venha a acontecer. Mas o fato é que espalhou-se pelo mundo a convicção de que se eles, americanos, podem, nós também podemos.

18.1.09

10 mil dólares por uma foto

Trata-se de uma foto da cantora Madona aos 20 anos. Nua, é claro, expondo a densa mata onde muito provavelmente alguém se perdeu e se encontrou.
Se eu tivesse essa grana certamente não gastaria no tal leilão promovido pela Christie’s de Nova Iorque que será realizado no dia 12 do mês que vem e tem esse valor, 10 mil dólares, como preço mínimo.
Madona, dançarina na época e precisando de grana, topou posar para o fotógrafo Lee Friedlander por 25 dólares, ou, 70 Reais nossos. Lembra até aquela história do Super-homem, que foi vendido por uma micharia pelo seu criador e depois virou uma montanha de grana.
Nunca fui fã de Madona. Mas, cá pra nós, vista assim, por esse ângulo, a loirinha me parece muito talentosa. 
Acho que vou entrar em um curso de fotografia e clicar as musas do futuro espalhadas pelo planeta.

OBS: a foto e as informações foram retiradas do Blog Pequenos Delitos. Ao PD o que é do PD.

13.1.09

Preguiça...vamos fumar unzinho?

Ando com preguiça de escrever. Faixa de gaza, crise mundial, desemprego, falta dágua, violência... Essas coisas todas são plenamente abordadas pela mídia todos os dias, todas tão indevidamente manipuladas, que perde-se até o tesão de retrucar.

Lembro de ter visto algumas reportagens no ano novo, cobrindo a festa, e entre cada frase proferida pelos repórteres sobre luzes, roupa branca e árvores ornamentais de bancos sempre havia uma observaçãozinha sobre a tal crise mundial. Chega a ser ridícula a forma como querem nos fazer pensar o tempo todo nessa porcaria.

Matérias sobre violência, então, nem se fala. Desde que descobriram a formula secreta que os permite ditar comportamento coletivo através do medo, o sistema nunca mais abandonou o tema violência. Dá dinheiro e poder, nada mais é tão eficiente. Agora inventaram até a moda de criar um oásis de "PAZ" em meio ao caos como se fosse uma espécie de protótipo de um belíssimo mundo futuro que poderemos alcançar se formos obedientes e amarmos nossos queridos governantes. O engraçado é que nesse protótipo as pessoas vivem sem escolas, saneamento, saúde pública, condições de habitação, ou seja, sem nada. Mas como não há tiroteio todo dia o tempo inteiro, apenas “ordenamento” policial, as pessoas já começam considerar tudo um paraíso. É a velha história do bode na sala.

Aliás, os próprios jornais em geral tem sido uma fonte de inspiração indispensável à galhofa e ao sarcasmo. É inacreditável a forma como idolatram os novos governantes, principalmente os que têm apresentado um comportamento psicótico e fascista. Desalojar miseráveis e perseguir prostitutas tem sido vendido como uma espécie de nova modernidade governamental. Hitler deve estar feliz no além com o reconhecimento póstumo alcançado.

Ainda bem que tem o Helio Ventura tocando no Recantu's Drinks Bar todas as sextas-feiras às 20:00h com o melhor da MPB, Samba, Pop, Rock e diversos ritmos. Dar uma força na divulgação para o amigo certamente ameniza a frustração imposta por uma mídia patética à um mundo tolo.

Só o amor bem feito, sem pressa, e sem fazer a barba e partir, contrariando o que ocorre na canção do Chico, pode nos aliviar dessas dores do mundo.

Além disso, só mesmo a arte. Os poemas e as canções. As telas e os tablados. Arte é vida e amor é arte. Quem não vive por aí fazendo guerra, aterrorizando os outros ou roubando dinheiro público ou privado, sabe muito bem disso.

Só para registrar: quanto à israelenses e palestinos, acho que eles deveriam fumar o cachimbão da paz que está aí na foto.

9.1.09

Com Bilac, ouvindo a estrela Maysa

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?
" E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas
.
Olavo Bilac Via-Láctea
Soneto XIII
OBS: O poema eu peguei no Blog da Lícia - http://sualicia.blogspot.com
O vídeo é uma produção da TV Cultura de 1975

5.1.09

Ano novo, guerra velha...ler para entender

O Ano começou mal no mundo. Israel jogando bomba na cabeça dos palestinos (e vice-versa) e invadindo a faixa de Gaza por terra. Já morreu gente demais nesse conflito milenar – Ricardo coração de Leão e Saladino que o digam - mas os poderosos sempre acham pouco. É a cultura da guerra.

A ONU, pra variar, fala ao vento e ninguém liga pras suas resoluções, pois elas só valem de verdade quando dirigidas à Países adversários dos EUA.

Um dos argumentos da invasão do Iraque, por exemplo, - que no fim das contas visava apenas roubar o Petróleo dos iraquianos - foi exatamente o não cumprimento de cinco resoluções da ONU. Israel não cumpre nenhuma, nunca cumpriu, e ninguém reclama. Coisas da vida... 

Para os EUA a culpa é toda do Hamas, uma espécie de PSTU armado até os dentes, que controla Gaza. Mas para o Hamas a culpa é de Israel, que tomou parte de seu território. Guerra é isso. Nada justifica nada, mas pessoas morrem aos montes acreditando que tem razão. Principalmente lá, onde uma questão de fundo religioso provoca essa guerra milenar pelo poder.

Pra nossa sorte no Brasil não existe isso, nem pra um lado nem pro outro. Nossa guerra se limita à inexistência de governos e as máfias estabelecidas: drogas, saúde, educação, milícias, saneamento... Aquelas de sempre. O povo até já se acostumou tanto com a ação das máfias quanto a corrupção dos poderes, tanto o oficial quanto o paralelo.

Aqui não tem Hamas, e se tivesse, certamente seria Hamenos.

E além do mais, do ponto de vista da guerra religiosa, a Universal e seus blues caps ainda não esta com essa bola toda. Católicos e umbandistas nem sempre concordam com isso, é verdade. Mas a coisa ao que parece está ainda sob controle.

Na verdade seria mais interessante se os líderes dessas guerras resolvem a coisa no tapa, só os dois líderes opositores, trancados dentro de um quarto escuro.

Mas isso não daria IBOPE, não venderia tantas armas e nem permitiria a mídia ganhar rios de dinheiro explorando os dramas de ambos os lados. E assim não teria graça nenhuma, pelo menos para os donos da grana.

Eu não gosto de guerra, mas preciso ler um pouco mais para compreender a origem desse conflito. Marquei com uma amiga na biblioteca para, juntos, estudarmos este e outros graves problemas que afligem a raça humana. Vou lá, pois estou atrasado e ela já deve estar me esperando.

31.12.08

Portal do tempo

É o último dia de dezembro
Tu te perguntas se estais mesmo pronto
Pensa em quem vai
Dali
Sair correndo
Ou em quem vai
Ficar
Juntando escombros

Em como vão reagir os amigos
Os inimigos
Os desconhecidos

Pensa nos anos todos sucumbidos
E nas vitórias
Nos milhões de planos
E tu te sentas
Calmo
Na poltrona
Bebes de um gole só o desespero
Da esperança
Criada em cativeiro
Tira
 os suportes
Para próxima semana

Próximo mês
Talvez
Próxima era

Pra se molhar
Os dedos na quimera
E rabiscar na tela outros anos

E se uma bomba explodir
Aflita
Na tua rua ou na tua cama
Saber que a bomba
Mente
Traí
Engana
E que em momento algum ela te habita

Dentro de ti há árvores seculares
Flores diversas
Cores variadas
Texturas próprias
Fontes preparadas
Para fluir
até o fim dos dias

E se a bomba parecer potente
Basta sabe-la vil
Covardemente
construída
Para impedir a vida
De ampliar seus ramos
Pela nova estrada

Basta saber
Que não há de ser nada
Que os dias vem e vão
Indiferentes
Bombas e balas
Não são suficientes
Para impedir teu sonho
em movimento

Abra
o champanhe

Comemore a glória
De ver a vida abraçada à história 
Atravessando o portaldo tempo

26.12.08

Canção e vida

Um dia desses, eu era feliz como quem nunca se afastou do porto

Matava a fome num ou noutro corpo e idolatrava as luzes do País

Quando cantava, era sem esforço. Me vejo ainda escalando um fosso

Pra sussurras canções pra alguma atriz

 

Por muitas vezes cruzei a estrada que dá em nada,

A da canção do Gil

Só pra colher papoulas destroçadas, amontoadas num distante abril

O curioso é que, quando voltava, eu gargalhava ao som do vinil

 

Casa no campo, violão com lua, namorada nua, beijo de uma estranha

Cauda de pavão cheia de mistério, Chico, o planisfério, Rita, Gal, Bethânia

 

Lembrando agora vejo que não fiz nem a metade do que tinha em mente

Enquanto expunha o corpo ao sol quente e rabiscava textos na alma com giz

 

Percebo agora que a estrada em frente, aquela mesma que vai dar em nada

É a morada do que eu sempre quis

 

Por isso sigo firme, passo á passo. Há algo belo, eu sei, em algum lugar.

Para encontrar na borda do oceano a flor que valha à pena cultivar

É necessário estar disposto a tudo. Solto no mundo, quero caminhar

 

Quero explorar os buracos da rua e revirar as cestas nos portões

Assoviar pra voz que continua a misturar a vida com as canções

25.12.08

O Papa definitivamente não é pop

Ao contrário de JP2, que tinha um carisma fantástico, o atual Papa é naturalmente antipático.

Como se não bastasse isso, o sujeito ainda é alemão, o que agrava a coisa em termos de simpatia, e há quem garanta ter sido ele simpatizante do nazismo na juventude.

Considerando o grau de preconceito e conservadorismo extremo que emana de seus discursos não é muito difícil imaginar que isto seja verdade. Aliás, o histórico geral da igreja católica mostra uma certa queda por um comportamento intolerante e autoritário. A idade média é uma prova irrefutável disso. Bastava o sujeito não concordar com uma ou outra bestialidade praticada pelo clero, já que naquele período as bestialidades em geral eram até comuns, para que o mesmo fosse acusado de heresia ou coisa parecida e acabasse torrado em uma fogueira santa qualquer.

Quase todos os atuais instrumentos engendrados pelo ser humano com o propósito de tornar miserável e dolorosa a existência de outros seres humanos foram inspiradas nas máquinas medievais de tortura planejadas e largamente utilizadas pelos então proprietários da fé, da verdade absoluta e das almas dos pobres e infelizes – Isso é quase um pleonasmo -, e mesmo assim, ao que parece, ninguém aprendeu nada.

Na semana passada o atual detentor do trono de São Pedro manifestou-se mais uma vez a favor do preconceito e da intolerância ao defender, de forma bem sublime como o cargo exige, o extermínio dos homossexuais. Fez analogia, inclusive, com o movimento ecológico e estabeleceu que o salvamento do planeta passe pela correção dos “desvios” da sexualidade. Um discurso digno de náuseas.

Como pode alguém cuja profissão o obriga ao celibato tecer conjeturas a respeito da sexualidade humana? É antes de tudo um contra-senso. Se há algo que o Papa desconhece profundamente são as nuances do ato sexual. Pelo menos oficialmente.

Na verdade a coisa não passa de cortina de fumaça. O interesse real das religiões como um todo reside no exercício de poder e não na “purificação” do ser humano através de um determinado comportamento tido como “correto” diante de “Deus”. Isso tudo é bobagem. O pano de fundo desse debate é a prática do sexo com o objetivo exclusivo de reprodução, como se houvesse pouquíssima gente no planeta, e a conseqüente capacidade de dominar, ditar regras e ser absolutamente obedecido.

Seria bom se as pessoas mais esclarecidas reagissem a isso. A pior coisa que poderia acontecer ao planeta seria o retorno do obscurantismo ao ponto de até mesmo a sexualidade de cada um ser vigiada por um poder estabelecido. Na verdade até mesmo os que defendem esse absurdo em nome da fé deveriam rever suas posições. Se esse papa, que é uma anta peluda, pode dar-se ao luxo de exercer a intervenção estatal – o Vaticano é um Estado – na sexualidade alheia, seus sucessores certamente terão o mesmo poder. Já pensou se algum Papa futuro resolver tornar o homossexualismo obrigatório? Seria, literalmente, um “Deus nos acuda”.  


21.12.08

Bando de doido....um elogio à loucura, ou, no caso, à doideira.

Apaguei todos os meus scraps no orkut, menos dois. Um com um vídeo do Eric Clapton que uma amiga me enviou, e um outro, do Bando de doido, contendo um programa auto executável com 6 belíssimas canções.

Gosto muito de ouvir músicas boas dessa turma nova a qual mídia se recusa a dar uma força. Na verdade creio que se a música do Bando de doido tocasse nas rádios seria um alívio para os ouvidos e, principalmente, para a alma dessa galera toda que perambula por aí procurando algo decente para ouvir.

Para ser sincero tenho a nítida impressão de que se Chico, Caetano, Tom e tantos outros ícones da MPB começassem sua carreira nos dias de hoje estariam fadados ao limbo. Esse povo de gravadora e rádio, ao que me parece, salvo raríssimas exceções, deixa o cérebro trancado em uma gaveta na hora de escolher artista e repertório e com isso privilegiam o que há de pior, publicando coisas aquém do medíocre.

Mas há uma luz no fim do túnel e felizmente não é um trem. A internet hoje nos permite furar o bloqueio e ter acesso a artistas fantásticos em todos os cantos do planeta. Música, artes plásticas, literatura...tudo anda girando na rede de forma maravilhosa e graças à isso podemos ouvir, por exemplo, o Bando de doido, Beto Gaspari, Marko Andrade, Marcelo Ferreira, Juliana Zanardi e tantos outros artistas fabulosos. A internet nos permite verdadeiros contatos imediatos de múltiplos e variados graus.

Como disse Bandeira: Evoé Baco! Evoé Momo! Evoé Vênus!

E, acrescento eu, evoé internet!

OBS: quem quizer conferir é so acessar www.myspace.com/bandodedoido

20.12.08

Chico Alencar, o escrotinho, e a demagogia de "esquerda"

O Deputado Chico Alencar quer transformar o Funk em cultura popular brasileira. Nota-se de longe que o parlamentar mais bobento do Rio de Janeiro não tem a menor idéia do que seja a cultura nacional.

Qualquer criança sabe que o Funk é um gênero tipicamente americano imposto aos favelados do Rio de Janeiro, e posteriormente de outros Estados, como opção única de "lazer". Na prática serve de instrumento para bestialização de massa na medida em que é usado para fazer apologia aos traficantes menores, às drogas e à banalização do sexo.

Independente disso, no entanto, seria um erro dizer que o movimento Funk, em si, é algo violento. Na verdade o uso político que se faz dele, devido à influência que este exerce no comportamento dos jovens carentes, é que o torna condutor de violência como forma de dominação.

Sem querer entrar no mérito da qualidade artística, pois minha má vontade e aversão natural ao funk não me permitiriam ser imparcial, me surpreende a demagogia da coisa. Na prática é como se alguém tentasse impor, por decreto, o rock ou o tango como culturas nacionais. Algo ridículo.

Na verdade, no entanto, não me surpreende que tal coisa tenha Partido de Chico Alencar. Este senhor fez carreira nos últimos anos surfando na demagogia e agarrando-se a um conceito muito próprio de ética parasitária que impressiona bastante a tola classe média carioca e o mantém sempre como paladino da moralidade, como, aliás, acontece com muitos parlamentares conservadores pelo Brasil afora.

Sujeito esperto, na acepção política da palavra, Chico deve ter percebido que o vazio existencial tem empurrado milhares de jovens da classe média carioca para os morros e bailes funks nos últimos anos. Então, independente dos dramas vividos pelas famílias desses jovens, o parlamentar deve ter percebido que esse “êxodo social” poderia lhe ser útil na captação de votos entre essa turma. Um comportamento escroto, mas que pode lhe garantir a sobrevivência política.

16.12.08

Porque me ufano do meu País...

Roubei o título do livro do Afonso Celso escrito no fim do século 19 pra tentar explicar a genialidade dos nossos governantes. A realidade tem me chegado através da imprensa, claro, mas à um custo terrível. Ler qualquer jornal brasileiro da atualidade pode ser arriscado. O sujeito pode até destroncar o cérebro na tentativa de compreender a lógica surrealista que reina no universo tupiniquim.
No Estado do Rio, por exemplo, a moça que responde pela Secretaria de Educação anunciou recentemente a adoção do Funk nas salas de aula. Certamente criada na Zona sul da capital, ela deve achar uma gracinha o "Pancadão" do bonde do tigrão, tanto que ao invés de Português ou matemática decidiu que as meninas devem aprender a ser popozudas desde a tenra idade.
Não bastasse isso, li também que o grave problema da Educação esta sendo resolvido também com outra singela demonstração de criatividade. Além de Funk as escolas vão adotar também a meditação. Genial isso. Teremos no futuro toda uma geração completamente analfabeta, porém, altamente zen.
E o Lula? Seguindo a lógica de que as crises geram oportunidade, o Presidente da república, para o qual a crise internacional até dia desses era apenas uma marola, resolveu assumir a gravidade da mesma e aproveitar a onda para se vingar dos trabalhadores que o elegeram. Para tanto, o sapo barbudo esta propondo, em nome da resistência ao caos Bushiano, a "Flexibilização" das leis trabalhistas. Bunitinho, né? Os mega ricaços além de lucararem com o santo cascalho de bilhões de dólares vindo dos bancos centrais do planeta e com a isenção de alguns impostos, ainda ganharão o direito de adotar o trabalho escravo legalmente. Bota criatividade nisso.
E o povo, coitado, só entra na história pra pagar a conta. Freud, não, mas Masoch, creio, explica isso.

15.12.08

Versos íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável 

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão - esta pantera - 

Foi tua companheira inseparável!


Acostuma-te à lama que te espera!

O Homem, que, nesta terra miserável,


Mora, entre feras, sente inevitável 

Necessidade de também ser fera.


Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro, 

A mão que afaga é a mesma que apedreja.


Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nessa boca que te beija!


Augusto dos Anjos

12.12.08

Um certo Marcelinho Ferreira Trio

Rolou música de altíssima qualidade na última terça-feira, 09/12, no Bistrô.

O Guitarrista Marcelo Ferreira, que já rodou alguns cantos do planeta  oferecendo arte da boa aos nativos locais, resolveu desembainhar a guitarra e, juntamente com o Baixista Marcio Andrene e o Baterista Elvis Batera, formando o Marcelinho Ferreira Trio, comandou um espetáculo raro.

O grupo, que contou ainda com canja de Rogério Fraga - Bateria,   fez o Jazz subir pelas paredes, atravessar o salão e abraçar a platéia que andava aflita por algo assim, tão gostoso de ouvir.

No repertório algumas canções chamaram a atenção de maneira contundente. Velas Içadas (Ivan Lins e Victor Martins), Vera Cruz (M. Nascimento e Márcio Borges), Casa Forte (Edu Lobo) e Incompatibilidades de Gênios (João Bosco e Aldir Blanc) ganharam arranjos singulares. O trio emprestou a cada uma delas uma sonoridade especial e completamente nova, mesmo porque a qualidade dos músicos impôs naturalmente uma real impressão de que os instrumentos eram acariciados e respondiam ao carinho imediatamente, ressonando melodias e ritmos com suavidade e elegância. 

A até então inédita Notícias da África (Marcelinho Ferreira), seguiu pelo mesmo caminho, para o regozijo geral.

O som deveria acabar por volta das 11hs, mas foi até 1h da matina devido à dificuldade apresentada por cada um dos presentes na hora de ir embora. Estava bom demais.

O Marcelinho Ferreira Trio agora vai rodar por aí, tocando, como bons artistas, segundo Milton Nascimento, onde o povo estiver. Mas a turma do Bistrô torce pra que o vôo por outras plagas seja rápido e que o retorno seja breve.

9.12.08

Teu sabor

Beijei tua flor molhada

Cheiro e cor de papoula

Minha boca perfumada

Tonta e avassaladora

Atravessou a morada

Dos deuses e foi do nada

Ao tudo em alguns segundos

 

Senti o sabor do mundo

Brotando de cada lábio

Da tua da tua rosa entre aberta

E cada gota de sumo

Nutria-me, como o húmus

Que espalhado na terra

Nutre e revigora a planta

 

Sorvi tua alma e foi tanta

E tão doce minha voragem

Que ao contemplar nossa imagem

A lua empalideceu

Deixei, por fim, bem guardado

Na memória da minha boca

O sabor do gozo teu


OBS : A imagem que ilustra este texto pertence ao Blog Contos de LIilith, da Samarah. Sei que quem visitar vai gostar:  http://meuladolilith.blogspot.com