8.4.08

Adeus, esquerda festiva...

Quando eu era moleque, 14/ 15 anos mais ou menos, corria para as bancas todas as semanas para comprar o Pasquim, o hebdomadário - Jornal semanal com corcóva - mais marcante da história do Brasil. Fundado e dirigido por um bando de intelectuais beberrões, o jornal era sem dúvida alguma o maior algoz da ditadura militar em todo o universo de comunicação da época. Sua forma de fazer humor era uma verdadeira tijolada na testa dos generais.
Quando Paulo Francis saiu do Pasca e apareceu tempos depois como articulista da Globo, apanhou mais que boi ladrão. Todos os brilhantes intelectuais esquerdistas da época constataram em suas formulações motivos pouco nobres na atitude do velho jornalista. Muitos falaram abertamente em dinheiro, o chamaram de vendido e o escambau à quatro. Independente de qualquer coisa Francis continuou brilhante. E além do mais, aquele jeito de falar de forma debochada da esquerdalha, amparado pelo genial sotaque de uísque 12 anos, o tornava odiavelmente imbatível.

Quando Chico Caruzo chutou o pau da barraca foi mais ou menos a mesma coisa. De vendido para baixo a esquerdalha fez a festa em cima do cartunista. Dizem, inclusive, que, não sendo tão peso pesado, intelectualmente falando, quanto Peulo Francis, Caruzo teria se socorrido de um analista por vários anos, para curar os traumas da mudança de posição.
Naquele tempo os que abandonavam o bote da esquerda eram chamados de desbundados.
- Cadê fulano?
- Desbundou.
Era assim que se dizia quando alguém fugia da "luta".
Antes do desbunde de Francis e Caruzo, no entanto, ocorreu a famosa gripe do Pasquim. Foram presos Paulo Francis, Ivan Lessa, Ziraldo, Luiz Carlos Maciel, Paulo Garcez, Flavio Rangel, Sérgio Cabral, Tarso de Castro e Fortuna.
Millôr Fernades, junto com Henfil e vários outros colaboradores, tocaram o jornal durante os 2 meses que durou a prisão da turma. Segundo Jaguar, a única tortura física sofrida pelo grupo foi o corte do cabelo de Luiz Carlos Maciel. De resto, sempre foram unânimes nesse ponto, tudo ocorreu de forma tranquila. Bebiam, liam e até experimentavam um certa simpatia de seus carcereiros.
Escrevi isso tudo aí em cima só pra resgatar o histórico dos fatos e me dizer estupefacto ( É uma rima, mas não uma solução ) diante da notícia que li nos jornais dia desses.
Ziraldo e Jaguar ganharam mais de um milhão de reais, cada um, e mais uma pensão de 4 mil e setecentos reais mensais, por terem sido perseguidos durante a ditadura.
É algo cavalar. Gritante. Absurdo. Nenhum deles sofreu qualquer dano físico. Há centenas, milhares de pessoas, dos dois lados daquela querra que foi a Ditadura no Brasil, que não receberam sequer o reconhecimento do Estado. Nada justifica isso. Aliás, tanto Ziraldo quanto Jaguar seguiram, brilhantemente, é claro, suas carreiras. Escreveram e publicaram vários veículos de comunicação durante os últimos anos, contando inclusive com belas publicidades governamentais.
Ziraldo alega merecer seu 1 milhão e sua pensão porque fez chargues contra Fiqueredo. Pombas... Se ridicularizar governantes valesse tanta grana assim Cláudio Humberto e Teresa Barros, estariam milionários. Isso sem falar no prazer pessoal de se dar uma bela sacaneada em um governante pretencioso.
No final das contas quem está certo é Millôr Fernandes, que nunca arrotou esquerdismo mas foi quem segurou a gripe do Pasquim. O humorista foi curto e grosso: não era revolução, era investimento. Na verdade Ziraldo e Jaguar, na prática, compraram em baixa ações de uma empresa desvalorizada, o esquerdismo, e as venderam agora em alta. Capitalismo puro.
É bom lembrar que Anita Leocádia, filha do legendário Luiz Carlos Prestes e perseguida por ditaduras desde o ventre materno, recebeu apenas 100 mil reais de indenização e doou tudo para o instituto do câncer. E veja bem, Anita nunca se expôs posando de intelectual esquerdista.
E ainda tem gente por aí que defende a revolução russa de 17. Pode até ser efeito retroativo de algum ácido tomado nos idos de 68, mas é bom a gente ficar de olho. Afinal de contas o dinheiro é nosso.

27.3.08

Direitos humanos forjados à balas de fuzil na favela

Nem bem o PSDB do ex-desgovernador Marcelo Allencar ensaiou sua ressureição, lançando Gabeira para Prefeito em aliança com o PV e o Pepsi, digo, PPS, e lá vem Sérgio Cabral, o filho... roubar a cena do besteirol político carioca. Parece coisa de invejoso.

Mas cá pra nós, Cabralzinho pegou pesado. De uma tacada só conseguiu desmoralizar o Molon, o PT, o seu próprio desgoverno, o PMDB, O Lula, e de lambuja, tenta avacalhar o processo eleitoral .

A desmoralização de Molon é fácil de perceber. Como é que um sujeito que até dia desses se arvorava em defensor perpétuo dos direitos humanos vai explicar em casa o fato de ter como padrinho político um exterminador de pobres?
Todo mundo sabe que Cabral, o filho... tem um nojo terrível de pobre e considera as favelas fabricas de marginais. O cara disse isso em rede nacional de TV. Não é, portanto, intriga da oposição. O próprio Lula, inclusive, deu um esporro público no Governador quando veio inaugurar as obras do PAC. Disse com todas as letras que polícia não é pra entrar na favela atirando e matando indiscriminadamente.
No começo da atual legislatura Molon deu um piti infeccioso na Alerj exigindo a presidência comissaõ de direitos humanos. E agora a gente se pergunta, pra que? pra negociar o apoio de quem manda matar o povaréu? Seria ridículo se não fosse trágico. Os direitos humanos agora, com Molon comendo na mão de Cabral... o filho, serão forjados à balas de fuzil na favela e com o apoio irrestrito da referida comissão da Alerj.
Mas, felizmente, nem tudo é desgraça. Essa portentosa lambança patrocinada pelo Desgovernador vai fazer com que boa parte dos agentes políticos do Rio de janeiro abram definitivamente os olhos. O próprio PMDB, com todos os seus quadros e mandatários percebeu claramente que a legenda não tem a menor importância para Cabralzinho. Todos, sem exceção, são tratados como massa de manobra e nem mesmo os principais líderes do partido representam algo ou merecem algum respeito por parte de Cabral, o filho... Tanto que tomou a decisão sem consultar ninguém e realizou as reuniões decisivas no palácio Guanabara, fugindo da incomoda presença de seus colegas de legenda.
Aliás, o desprezo de Cabral por seu próprio partido é tão evidente que resolveu impor como vice de Molon um secretário e amigo pessoal, um sujeito que poderia muito bem fundar o MSV, movimento dos sem votos, pois nunca foi eleito para coisa alguma.
Na prática, no entanto, a coisa nem deve alterar muito o quadro eleitoral de novembro.
Gabeira até tomou uma pancada na nuca, mas como Molon é carola de carteirinha, ainda restam ao jornalistas os doidões e similares, que não devem embarcar na canoa do petista afilhado de Cabral.
Jandirão continua na mesma. O opaco Molon não chega a tomar-lhe os poucos votos que tem, ainda mais agora, aliado à carnificina oficial.
Crivella foi o que se deu melhor nessa história. As afinidades naturais e a necessidade de reagir lhe trarão, naturalmente, tanto os descontentes do PMDB quanto o povo mais pobre, traído pelo atual Governador desde a posse.
Pode ser até, inclusive, que o Senador atráia para si o apoio de Cesar Maia. O atual prefeito ja deve estar cansado de levar pernadas de Cabralzinho.
Quem perde mesmo, coitado, é Eduardo Paes, rifado na bacia das almas sem poder sequer espernear. O Secretário de esportes largou tudo que havia construido no PSDB e foi de mala e cuia atrás da promessa de Cabral. Foi literalmente defenestrado.
Os colaboradores mais próximos de Cabral, o filho... certamente irão, depois que Molon for também jogado fora, botar a culpa no porco.
Eu explico: Dizem que ainda quando presidente da Alerj, nos anos 90, Cabral comeu um porco infectado com uma terrível bactéria, e esta, por sua vez, por vingança ou solidariedade ao porco, comeu o cérebro de Cabral, que teve até que ir para os EUA para se livrar da doença causada pela tal bactéria. Seus marqueteiros e cambonos dizem que de lá pra cá ele ficou assim. Meio abilolado.

25.3.08

Ecletismo fantástico: Gabeira e a relação entre o homem e o mosquito


O jornalista Fernando Gabeira é realmente um ser raro. Li hoje na coluna do Ancelmo Gois, no Globo, que, em resposta ao Crivella, que ontem disse acreditar que o seu adversário não deve ter sucesso na campanha por defender "aborto, homem com homem e maconha", Gabeira afirmou estar preocupado com a relação entre o homem e o mosquito.
Genial, simplesmente genial. A afirmação do nobre Deputado deixa no chinelo qualquer postura vanguardista novaiorquina, por mais ousada que esta possa ser. Nem Andy Warhol, nem Jean-Michel Basquiat , Gabeira mostra que realmente é um ser muito à frente do seu tempo. Um visionário nato. Um ícone revolucionário.


No histórico evolutivo da revolução sexual ja se viu de tudo - ou pelo menos achava-se isso até aqui - mas nunca, em momento nenhum, nem o mais pisicodélico artista pop do planeta, chegou sequer a cogitar o possibilidade de uma relação entre um homem e um mosquito. Só mesmo Gabeira, nosso genio revolucionário, para pensar em algo assim.


Não deve ser nada fácil, inclusive, a consumação de uma relação como essa. Nem sei se o mosquito topa. Mas o fato é que a preocupação do nosso nobre Deputado esta acima destes detalhes fisicos despresíveis. Há quem diga que diante da ponderação de um mosquito, muito amigo do jornalista, íntimo mesmo, à cerca da impossibilidade do ato, Gabeira o teria respondido em tom solene : sim, nós podemos.


É disso que o Rio precisa. Alguém completamente amplo em termos de mentalidade; Alguém que não se prenda à concepções sociais tradicionalistas e esteja sempre aberto ao novo; alguém que supere os limites da capacidade humana de amar e se relacionar. Se Glauber estivesse vivo, certamente diria: Gabeira é um gênio da raça.


Talvez os mosquitos, que como sabemos são em geral muito preconceituosos, não concordem muito com essa tese, mas a humanidade há de reconhecer em Gabeira mais essa luta pela superação de nossas limitações.


Aliás, deve ser considerado também o aspecto econômico da coisa. Certamente a produção de lubrificantes, tipo KY, à partir desta tese inovadora de Gabeira, teria que ser substancialmente multiplicada, o que geraria milhões de novos empregos.


Até nisso o genial Deputado esta pensando. Evoé Gabeira.

14.3.08

Gabeira, o nosso herói....

O PSDB do Rio de Janeiro é realmente brilhante. Qualquer cidadão que minimamente lê jornais e se interessa por política tinha a plena impressão de que a qualquer momento seria declarado o óbito desse partido. Depois da tragédia dantesca que foi o desgoverno Marcello Alencar, quando quase todo o patrimônio do estado foi literalmente torrado na bacia das almas, ninguém mais acreditava que essa árvore pudesse gerar frutos. Até porque, com exceção de Otavio Leite, todos os quadros do PSDB do Rio, se fossem postos em um enorme caldeirão de feijão, não seriam suficientes nem mesmo para engrossar o caldo.
Quando menos se esperava, entretanto, eis que o PSDB ressurge das cinzas lançando o nome de Gabeira para prefeito. Os três pré-candidatos do partido, que degladiavam-se entre si pelo direito de passar vergonha nas urnas abriram mão de suas pré candidaturas para apoiar o ex-guerrilheiro.
Aliados ao PV - Partido Vazio- e ao PPS, os tucanos ganharam novamente a mídia.

O brilhantismo da coisa reside naquilo que Nelson Rodrigues chamava de óbvio ululante. Gabeira é sem dúvida o nome ideal para acabar definitivamente com o maior problema do Rio de janeiro, as drogas.

Percebe-se agora que o maior erro da nossa cidade foi permitir que o nobre Deputado ficasse tanto tempo em Brasília. Se morasse aqui em tempo integral certamente já seríamos uma cidade livre deste mal terrível.

Fico me perguntando...Como é que ninguém pensou nisso antes?

Como candidato a Prefeito, o grande jornalista e ícone inconteste da Zona Sul, será obrigado, naturalmente, por necessidade de campanha, a caminhar por toda a cidade pedindo votos. Subindo, inclusive, todas as favelas do Rio. É exatamente com esse ato singelo que Gabeira vai resolver definitivamente o problema.

Três meses de campanha são mais do que suficientes para que nosso ilustre candidato cheire e fume todo o estoque de drogas disponível. Livrando a cidade de uma vez por todas dessa praga.

A sociedade tem a obrigação de reconhecer isso e agradecer penhorada.

Obrigado Gabeira, nós sempre soubemos que você aspirava uma carreira grandiosa e brilhante.

9.3.08

Olha a pesquisa aí gente...


Um em cada quatro brasileiros concorda com torturas contra suspeitos de crimes.


Quem afirma isso não sou eu, mas o jornal “O Globo”.
Ah... O brasileiro é também racista e tem preconceito de orientação sexual.
Os dados são de uma pesquisa do Ibope com a agencia Nova S/B... da qual nunca ouvi falar.
Li a matéria e fiquei me perguntando: precisava de pesquisa?
De certa forma saber que só 25% das pessoas têm essa tendência já é um alivio. Se fossem 100% as CPI do congresso, por exemplo, seriam terríveis.
Imagino o Heráclito Fortes, por exemplo, naquele seu elegante jeitão de Godzila, com o dedo em riste gritando com algum depoente.
- Vai pro saco. Fala senão vai pro saco.
Cena dantesca.
O caso recente entre o Presidente Lula e o primo do Collor, que preside o STE, Ministro Marcos de Melo, certamente daria problemas. Quem iria torturar quem em busca da verdade? Talvez fosse até melhor os dois entrarem em um acordo, afinal de contas tortura entre poderes da república pode gerar graves problemas.
No caso do racismo a coisa seria mais dramática ainda. O Ministro Joaquim Barbosa, primeiro negro nomeado para STF na história, talvez fosse exonerado apesar de ser um orgulho para qualquer cidadão brasileiro. Uma tragédia.
Quanto à orientação sexual o preconceito, se fosse unânime, criaria farsas e falácias colossais. Da pra imaginar quantos candidatos ou candidatas teriam seu nome recusado nas convenções partidárias sob a acusação de “gay”? Uma infinidade. Seria uma verdadeira caça as bruxas. Literalmente. O cenário artístico e cultural do País desabaria, pois nenhum artista ou intelectual que se preze aceitaria condicionar sua arte a perseguições dessa ordem.
Mas o problema de fato ocorreria quando as coisas se misturassem. Imagina o tal depoente da CPI reagindo à ameaça de algum Senador – Não necessariamente o Heráclito, é claro – acusando-o de gay.
- O senhor não pode me ameaçar. O senhor é gay.
Pronto. O sujeito ta cassado. E até provar que perna de barata não é serrote o caldo certamente entornaria.
Felizmente, no entanto, a tal pesquisa aponta só 25% de pessoas com essas características. Como o poderoso O Globo não se deu ao trabalho de informar quantas pessoas foram entrevistadas, nem onde, cabe a nós, mortais comuns, apenas acreditar e resar para que a coisa não se agrave.
Os politicamente corretos, quando exaltarem o povo, terão que mudar seu grito de guerra.

Viva só 75% do povo brasileiro !!!!!!!!!

1.3.08

A saga do cafezinho...

Sexta-feira. Tudo normal no planeta. Grande espectativa de receber por um serviço executado na semana passada. A data marcada pelo cliente para fazer o pagamento é hoje. Nada melhor que isso. Receber um pagamento na sexta-feira para passar um fim de semana tranquilão...
Mas não foi bem assim que aconteceu. O monstro sem alma não cumpriu o acordado e me deixou sem um tostão no bolso...putzz...coisa terrível.

Sábado. A dureza se espalha por todos os cantos do apartamento, como se fosse um gás. Toma todo o ambiente. Uma vontade terrível de tomar um cafezinho. No entanto, nem um real no bolso. Penso seriamente em me enforcar no chuveiro.

Sábado a tarde. Penso ainda no cafezinho. O pão com linguiça vendido na feira da minha rua surge repentinamente em meus pensamentos. Expulso-o imediatamente. Já chega a vontade de tomar um café. Isso ja agonia a gente o suficiente.

A noite começa a cair...o desespero se agrava...

Eurekaaaaaa....

Lembro repentinamente de um cartão, em especial, entre os tantos completamente detonados guardados na minha carteira. Meu cartão de tiket refeição.

Parto bravamente para o Nova República, nesse momento, meu oásis na Mem de Sá.

Maravilha...Saboreio majestosamente os prazeres da carne e ao, final, claro, degusto o saboroso cafezinho da casa, com creme e tudo. Uma delícia.

Ai, meu Deus...Como é bom ser pobre.

Nossos governantes jamais curtirão um prazer semelhante. São todos ricos...Jamais desfrutarão do prazer de obter algo que parecia impossível.

26.2.08

Confusão de colunista...

Não entendi o Ancelmo Góis no " O Globo" de hoje.
Acho que ele confundiu o ex-governador com o atual.
Vejamos bem:

Cabralzinho anda tão desesperado que acusa PMs e professores de terroristas só porque querem melhores salários e condição de trabalho. Ambos.

O Governador ja tomou até dedo na cara de populares por conta do caos da saúde. O que aliás, honra seja feita, se repete na educação e segurança. Ou seja, nenhuma área do Governo é privilegiada em relação a outra. Todas estão igualmente abandonadas.

Vira e mexe o Governador se escafede para fugir dos problemas.

Sintomas claros de um Governo desorientado.

Por outro lado, a cobrança pública do pessoal aprovado no concurso da Polícia Civil para que sejam contratados, promessa não cumprida da campanha de Sérgio Cabral, revela um quadro agúdo de amnésia.

Mas Ancelmo publicou tudo ao contrário.
Garotinho se internou pra cuidar da pressão e o nosso nobre jornalista tascou em sua coluna que o Ex-governador apresentava “quadro que incluía desorientação e amnésia”. Certamente confundiu o ex com o atual. Aliás, vendo essa foto aí em cima eu acho até que o quadro do atual Governador deve ser grave mesmo.

Pegaram Lupi pra Cristo...

Tem coisa que só acontece no Brasil. Em que outro País, por exemplo, o Ministro da Fazenda de um Governo deposto por corrupção se tornaria presidente de uma comissão de ética? Nenhum, é claro. Pelo menos nenhum País sério. Mas no Brasil acontece.
Marcílio Marques Moreira, Ministro de Fernando Collor de Melo, é o presidente da comissão de ética da república. Isso mesmo, meus amigos...comissão de ÉTICA. Considerando o Governo a quem serviu, fico me perguntando qual seria o percentual dessa comissão. Mas deixa isso pra lá...

O fato é que esta mesma comissão vem fazendo toda a pressão do mundo para que o Ministro do trabalho, Carlos Lupi, entregue o cargo. Sabem de que crime Lupi é acusado? Eu digo. Pelo crime de ser Presidente, eleito, de seu partido, o PDT. É isso mesmo. O mesmo governo que compra tapioca com cartão corporativo, esconde dolar nas cuecas, paga mensalão e promove tantas outras aberrações administrativas, tem uma comissão de ética assim. Pura, santa e bela. Presidir um partido e crime, segundo a visão do ex vice presidente do Unibanco. O resto tá liberado.

Chega a ser até meio ridículo debater isso. Mas seu Marcílio, Ministro do Collor, leva a coisa muito à sério, tanto que renúnciou a presidencia da comissão em "protesto" por Lula não ter acatado sua sugestão e defenestrado Lupi. Seu vice, no entanto, o agora presidente da comissão Sepúlveda Pertence, ja assumiu o cargo botando lenha na fogueira. Quer a cabeça de Lupi de qualquer jeito.

Na verdade Marcílio e Sepúlveda pertencem ao mesmo clube. O Clube do poder eterno. Se um é amiguinho de Collor, o outro, Pertence, chegou a Ministro do Supremo indicado por Sarney. Cruzes...essa comissão pode ser de tudo, menos de ética.

Lula, infelizmente, para obter a chamada governabilidade, juntou o joio, o trigo e a lama de plantações passadas, aquelas mesmas que propiciaram frutos enormes à ditadura militar, e encubou tudo em seu governo. O resultado é esse samba do crioulo doido.

Curiosamente - talvez seja uma mera coincidência - o jornal " O Globo", porta voz oficial das forças mais reacionárias do País, já começa a descer a bodurna no Ministro do Trabalho. Uma simples operação de incentivo à cursos profissionalizantes vem sendo tratada pelo jornal dos Marinhos como algo tenebroso. Não há uma irregularidade sequer no processo, mas o jornalão apela para a ÉTICA. A mesma ética parasitária de Marcílio e Sepúlveda, é claro. Querem que Lupi tenha o mesmo destino do dedinho de Lula.

Na verdade a coisa é bem simples: Essa gente acha um absurdo gastar dinheiro público com investimento em qualquer coisa que beneficie o povo. É a mesma lógica usada contra Brizola. Diziam que os CIEPS eram caros demais para favelados.

Há, é claro, uma questão de fundo. Se um governo, qualquer um, usa o dinheiro para inevstir em qualificação de trabalhadores, sobra muito pouco para as agências de publicidade e consequentemente para os veículos de comunicação, como " O Globo", por exemplo.

Essa elite acha que o dinheiro público lhes pertence, por isso são sempre contra investimentos populares.

Lupi que prepare o lombo, pois certamente será espancado daqui em diante pelo sistema Globo. Tudo graças ao entulho representado por Sarney, Collor e tantos outros personagens que se mantem no poder com o Governo Lula. O brasil é assim, fazer o que?...a Esquerda de quem vai é a Direita de quem vem. E todos são de centro quando no exercício do poder.

22.2.08

Ihhhh.....Fomos parar no The Guardian...

O amigo anônimo a quem dediquei a postagem anterior me informou, mais uma vez, de algo importante. O colunista do The guardian, Conor Foley, colocou um link para o nosso blog em sua coluna mais recente do jornal inglês. Fiquei até emocionado. Nós aqui no Brasil não estamos acostumados com o exercício tão sério e democrático do jornalismo.
A condição de monoglota me impediria naturalmente de ler o novo artigo do autor, mas recorri ao Alta Vista para traduzi-lo, e me surpreendi. Gostei muito. Considerando, é claro, minhas limitações em relação ao idioma de Shaekespeare. Tentei até postar um comentário, mas há a necessidade de se registrar no site para tanto, o que frustrou minha intenção. Mesmo com tradutor on line a coisa não seria simples.
De um modo geral o texto de Foley, cujo título é "Viva Lula", analisa a sociedade brasileira e latino americana do ponto de vista social e político de uma forma bastante interessante. Mas o que me chamou a atenção foi a posição crítica em relação as elites brasileiras, frisando inclusive o aspecto racial refletido nas camadas de nossa sociedade.
Como do artigo anterior eu havia lido apenas os trechos "pinçados" pelos paladinos da nossa gloriosa imprensa, fiquei com a nítida impressão de que fui injusto. O cara é gente boa e bom profissional.
De certa forma me senti até identificado com o texto, embora tenha pairado uma sensação de que se o autor conhecesse mais o Brasil, e principalmente o Rio de janeiro, sua visão fosse um pouco diferente.
Me ocorreu que seria interessante trazer Floley para um passeio pelo Rio de janeiro. Não apenas, é claro, pelas praias e pontos turisticos da zona sul, nem tampouco só pelas favelas da cidade. Mas algo além disso. Talvez uma caminhada pela Baixada Fluminense, na região metropolitana do Rio, com direito a uma carne de sol no restaurante do Mussarela, em Caxias, servida com aquele aipim que derrete na boca, e depois uma passada na Lira de Ouro, ponto do Ministério da Cultura também em Duque de Caxias, em dia de "Quarta básica", noite musical comandada por Heraldo HB. Música e poesia em estado puro e cristalino. Incluiria, é claro, uma visita à turma do cine clube "Mate com angú", que produz e reproduz filmes de curta metragem com todas as dificuldades do mundo...tirando leite da pedra. Seria bom também passar por Nova Iguaçu e assistir à um dos vários eventos culturais produzidos por Claudina Oliveira. Arte da melhor qualidade.
Digo isso porque poderiamos constatar que as mesmas pessoas que sofrem horrores em regiões esquecidas pelo nosso sistema político e econômico, reagem o tempo todo e da melhor maneira possível às agruras do nosso apartheid social.
Creio, sinceramente, que o jornalista irlandês gostaria do passeio. E nós também, é claro.

21.2.08

Ao meu amigo anônimo...

Um amigo leitor anônimo postou um comentário sobre o texto relativo ao filme "Tropa de Elite" e o artigo publicado no jornal inglês The Guardian. Considerei ótimo o seu questionamento e faço questão de responde-lo:

Caro amigo anônimo,
Em primeiro lugar, agradeço pela informação. Realmente imaginei que o autor do artigo fosse inglês devido ao jornal onde o mesmo foi publicado. Você me informa que trata-se de um cidadão irlandês, portanto, desculpo-me com os leitores pelo ato falho.
Quanto ao texto em si, quero deixar claro que não há de minha parte nenhuma intensão xenofóbica, muito pelo contrário. De um modo geral acho muito bom que o filme tenha chamado a atenção de pessoas fora do País, quer elas concordem ou não com sua abordagem, assim como considero importante que chegue a nós, brasileiros, obras artísticas de toda parte do mundo.
O que questiono, meu caro amigo anônimo, é a absorção imediata de uma determinada opinião simplesmente pelo fato de esta ter vindo de um autor ou veículo estrangeiro. E infelizmente, faz muito tempo, nossas elites e nossa imprensa têm esse hábito.
Discordo, é claro, da opinião de Conor Foley, mas considero fantástico o fato dele tê-la emitido. Não se trata apenas de uma ação legítima, mas também fundamental para que possamos interagir culturalmente. Queria eu conhecer muito mais do que conheço sobre a Irlanda, sobre a Inglaterra e muitas outras nações. E gostaria também que Conor Foley e muitos outros cidadãos estrangeiros conhecessem mais sobre o Brasil. Seria muito bom para todos nós, creio.
Esclareço, no entanto, que o artigo do "The guardian" foi explorado aqui de forma tendenciosa, usado para fundamentar a ação reativa de nossas elites retratadas no filme como verdadeiras patrocinadoras do tráfico de drogas e consequentemente de boa parte da violência urbana.
Você me pergunta se eu teria algum diálogo com estrangeiros que discordam da minha opinião. E eu lhe respondo: claro, meu amigo anônimo. O diálogo é importantissimo, assim como a divergência de opiniões. Não importa a nacionalidade dos debatedores, pois o mundo é cada vez mais uma pequena aldeia. Linguas e culturas diferentes não podem servir de obstáculo para qualquer debate. Até porque o próprio debate serviria como instrumento para aproxima-las e fazer com que se compreendessem melhor.
O que me indigna, na verdade, é o uso de conceitos e opiniões de um determinado autor estrangeiro, completamente fora de contexto, com o intuíto de justificar as ações danosas de uma pequena parcela da sociedade, como é feito aqui.
Certamente Conor Foley analisa a questão de acordo com sua própria cultura e com sua visão de mundo. O que é rigorosamente natural. E discordamos exatamente por isso. Nossos olhares são diferenciados. O que aliás, não desqulifica de forma alguma o debate.

Imagem- Duque de Bedford, "Torre de Babel", c. 1423. Biblioteca Britânica, Londres

20.2.08

Não sei se é verdade, mas recebi por email e não resisti em publicar...rs

Um médico sincero foi questionado sobre vários conselhos que sempre nos são dados…

Pergunta: Exercícios cardio vasculares prolongam a vida, é verdade ?
Resposta: O seu coração foi feito para bater por uma quantidade de vezes e só… não desperdice essas batidas em exercícios. Tudo gasta-se eventualmente. Acelerar seu coração não vai fazer você viver mais: isso é como dizer que você pode prolongar a vida do seu carro dirigindo mais depressa. Quer viver mais? Tire uma soneca !!!

Pergunta: Devo cortar a carne vermelha e comer mais frutas e vegetais?
Resposta: Você precisa entender a logística da eficiência… .O que a vaca come? Feno e milho. O que é isso? Vegetal. Então um bife nada mais é do que um mecanismo eficiente de colocar vegetais no seu sistema . Precisa de grãos? Coma frango.

Pergunta: Devo reduzir o consumo de álcool?
Resposta: De jeito nenhum. Vinho é feito de fruta. Brandy é um vinho destilado, o que significa que, eles tiram a água da fruta de modo que vc tire maior proveito dela. Cerveja também é feita de grãos. Pode entornar!

Pergunta: Quais são as vantagens de um programa regular de exercícios?
Resposta: Minha filosofia é: Se não tem dor…tá bom!

Pergunta: Frituras são prejudiciais?
Resposta: VOCÊ NÃO ESTÁ ME ESCUTANDO !!! . Hoje em dia a comida é frita em óleo vegetal. Na verdade ficam impregnadas de óleo vegetal. Como pode mais vegetal ser prejudicial para você?

Pergunta: Flexões ajudam a reduzir a gordura?
Resposta: Absolutamente não! Exercitar um músculo faz apenas com que ele aumente de tamanho.

Pergunta: Chocolate faz mal?
Resposta: Tá maluco? !!!! Cacau!!!! Outro vegetal!! É uma comida boa pra se ficar feliz ! !!

E lembre-se: A vida não deve ser uma viagem para o túmulo, com a intenção de chegar lá são e salvo, com um corpo atraente e bem preservado. Melhor enfiar o pé na jaca, cerveja em uma mão, tira gosto na outra, muito sexo e um corpo completamente gasto, totalmente usado, gritando: VALEU !!! QUE VIAGEM !!!!!! !!!!!!

19.2.08

Pra inglês ver...e falar besteira.

Os ingleses foram os colonizadores mais perversos da história recente da humanidade e cometeram um sem número de atrocidades por onde quer que passaram nos últimos séculos. Até mesmo o processo de colonização e independencia dos EUA, hoje donos do planeta, foi marcado pela mão pesada dos ingleses.
Na época da Rio 92 chegaram a fazer uma campanha e distribuir camisetas em londres com os seguinte dizeres: Preserve a natureza, mate um brasileiro.

Fiquei abestado, por tanto, quando li nos jornais de hoje, ou ontem, sei lá, sobre o artigo publicado na segunda-feira no jornal inglês The Guardian, pelo "defensor dos Direitos Humanos" Conor Foley, excomungando o filme brasileiro "Tropa de elite". Me pareceu o poste mijando no cachorro.

O que me deixou pasmo nem foi o artigo do sujeito em si, mas a repercussão do mesmo em terras brasileiras. Cada vez estou mais convicto de que a subserviência intelectual de nossas eleites aos estrangeiros é algo assustador.

O sujeitinho inglês, assim como alguns membros de nossa gloriosa elite zona-sul, impõe ao filme de José padilha a pecha de fascista. Nada mais grotesco. Já até escrevi aqui no blog sobre isso e repito: passamos os últimos 30/40 anos recebendo doses industriais de violência na veia, violência essa estrelada por Charles Bronson, Van Dame, Shuarzeneguer - nem sei se é assim mesmo que se escreve - Stalone, e tantos outros mais, sem um mínimo de questionamente por parte de ninguém.

Todos os filmes desses elementos, empurrados por nossa goela abaixo desde a década de setenta, criaram aqui a idéia do herói matador. Do lobo solitário que cumpre sua vingança ao arrepio de todas as leis vigentes.

Nenhum deles no entanto questionou o interesse dos poderosos no processo de violência urbana importado por nós. Na verdade essa gente não ataca o filme brasileiro por conta do teor de violência exposto no filme, mas por sua abordagem responsabilizando a classe média e as elites pelo gigantesco negócio em que se tornou o tráfico de drogas. É, como diria Nelson Rodrigues, o óbvio ululante.

Vários outros filmes abordando a violência ja foram produzidos no Brasil, mas nunca com tal abordagem.

Acusar o filme de fazer apologia da violência é uma falácia. Trata-se na verdade de uma obra realista. Só isso. Pode ser até que uma parcela da sociedade, a mais bem aquinhoada, claro, nunca tenha se dado conta de como a polícia age, mas a grande maioria, moradora das favelas, dos subúrbios e da Baixada Fluminense, sabe muito bem como a coisa funciona. O filme esfrega na cara do espectador a realidade. Nada mais que isso.

Nossa polícia, desde a sua concepção, nunca teve como viés principal defender o cidadão, mas o patrimônio. Essa é uma herança recebida por nós desde o processo da colonização e só repensada, no caso do Rio de Janeiro, à cerca de 25 anos atrás, época em que o Coronel Nazaré Cerqueira, no 1º Governo Brizola, assumiu o comando da PM. Tornou-se inesquecível uma foto publicada pela imprensa da época com políciais conduzindo pessoas pobres com cordas amarradas nos pescoços, motivadora da indignação do então Governador.

Fascista na verdade é a concepção das nossas elites, por adotar a lógica de guetos segregados e repressão do Estado contra os mais pobres ( é bom lembrar que no começo do século passado a polícia prendia pobres pelo simples fato de serem sambistas. Eram considerados vagabundos).

Dizer que Tropa de Elite é fascista é o mesmo que afirmar que a condenação da extrema violência policial contra pessoas de bem significa proteger bandidos. Uma tolice.

O inglês, autor do artigo, ( provavelmente um genérico local do Gabeira ), diz que os Brasileiros deveriam ter vergonha pelo sucesso do filme. Opinião capciosa. O brasileiro tem todos os motivos para se envergonhar sim, mas de suas elites, que patrocinam drogas e depois fazem passeatas hipócritas pela paz. Assim como, aliás, a inglaterra, patria mãe de Conor Foley, deveria se envengonhar de seu histórico de atrocidades.


OBS: Já havia publicado essa foto aqui no blog, mas publico de novo e esclareço que não é cena do filme Tropa de Elite. Trata-se de uma ação real da PM do Rio de Janeiro no início dos anos 80.


14.2.08

Difícil de se ler....

O hábito da leitura dos jornais do dia, pra quem o tem, anda se tornando uma coisa cada vez mais inglória. Nem tanto por todos os veículos se limitarem às mesmas notícias - isso a gente até se acostuma - Mas pelas notícias em si. De um modo geral não há rigorosamente nada que preste. A impressão, em alguns casos, é que estamos lendo as centúrias de Nostradamus. Tragédia, tregédia e mais tragédia.

Um amigo publicitário me disse certa vez que a tendência é piorar. O povo adora tragédia e os jornais, é claro, querem vender cada vez mais.

Eu, que gosto, por exemplo, de política, por mais absurdo que isso possa parecer ao meu caro prestimoso leitor, me sinto prejudicado. Alguns jornais, como O Globo, já até aposentaram sua editoria política faz tempo, prestigiando a editoria de economia. Ou seja, não importa quem manda, nem quem paga, mas sim quanto custa. Isso na verdade tem até uma certa lógica. Nossos "líderes" políticos em verdade raramente tem algo concreto para nos dizer. E como o "Estado" virou uma abstração que só serve para, vez por outra, atrapalhar os planos de exercício de poder do Governante, a medida se mostra mais acertada ainda.

Não faz muito tempo, para exercer dignamente um mandato, o sujeito tinha que conhecer pelo menos a estrutura do poder público. Fosse ele de esquerda, direita, centro ou muito pelo contrário. Hoje não. Basta ter dinheiro para a campanha eleitoral. Isso faz com que este pobre escriba compreenda cada vez mais a síntese do regime democrático: qualquer um pode chegar ao poder. E o poder, como se sabe, corrompe mesmo.

Mas voltando as notícias...o que me chamou mais atenção nos jornais de hoje foi o caso da ALERJ. Um grupo de funcionários da casa ganhou na justiça o direito de receber algo entre 300 e 400 milhões em indenização por conta de cortes salariais feitos na década de noventa. Qualquer pessoa sensata que tenha acompanhado o caso na época já sabia desse desfecho. Direito adiquirido é, como o nome diz, adiquirido. Não pode ser retirado. Mas poucos governantes resistem aos apupos da vaidade. Aliás, quanto mais vaidosos, mais são cegos, (ou pelo menos míopes) surdos e obtusos em relação a coisa pública. Vira e mexe nossa estrutura pública é assumida por algum Chapolim Colorado que adora posar para a patuléia como um verdadeiro super herói, e como no final das contas o dinheiro em questão, em caso de prejuízo, não lhes pertence, jogam pra galera o tempo todo amparados pelos fantásticos holofotes da mídia. Esses casos de heroísmo, é claro, custam caríssimo. Mas é sempre a gente quem acaba pagando a conta. É como disse Nostradamus, não tem jeito, o mundo vai acabar acabando mesmo.
Detalhe: Quando vier o fim do mundo o povo certamente vai apaludir nas ruas. Finalmente teremos sacramentado o fim da corrupção.

6.2.08

Beija flor campeã de novo....É isso aí, BICHOOOOO

Resolvi rever meu comportamento. Deste momento em diante estou aderindo, de mala e cuia, ao senso comum. Passei pro lado do povaréu. Faço isso usando como fundamentação a constituição brasileira: todo poder emana do povo e em seu nome será exercido. O 1° artigo original da lei magna era esse. Em 88 mudaram uns pedacinhos, mas a essência - o espirito da coisa -continua a mesma. Na vitória da beija-flor hoje, por exemplo, como bi campeã do carnaval do Rio de janeiro, fiquei emocionado com a alegria do povo. Toda aquela multidão que ama profundamente empurrar os carros alegoricos para a exibição das celebridades, vibrava de alegria na quadra da escola.
Não interessa se a Policia Federal descobriu recentemente que o "Capo" da agremiação compra os resultados. Isso é bobagem, afinal de contas é o povo quem paga a festa e tem todo o direito de ser massificado e manipulado quando bem entender.
Entre Município, Estado e União, via petrobás, a LIESA embolsou algo em torno de 30/40 milhões de reais. Grana que dá muito bem para pagar a "colaboração" dos jurados e ainda sobra um bom cascalho para investir em novas máquinas caça níqueis. As atuais, segundo consta, usam tecnologia já ultrapassada.
Na verdade, a vitória da escola de Nilópolis vem consagrar uma concepção tipicamente brasileira, a concepção do " que se dane o mundo que eu não me chamo Raimundo".
Só pra ilustrar podemos pegar os escândalos financeiros, políticos, jormalisticos, religiosos, etc, que explodem no Brasil desde sempre. Os políticos, por exemplo. Não há um só Deputado, Senador - ou qualquer mandatário que seja - envolvido em maracutaias, que não tenha sido rigorozamente eleito pelo povo. E não é com pouco voto não, é sempre com mais de 100 mil votos. Portanto, podemos concuir, o povo ama muito tudo isso.
O Brasil é e sempre foi um País peculiar. Ou surrealista, como disse De Gaulle.
Os EUA por exemplo, viveram a fase atual do nosso processo evolutivo nas décadas de 30,40 e 50 do século passado. O País era controlado por todos os tipos de máfias e o crime ditava as regras em todas as grandes cidade americanas. Hoje, com mais de 50 anos de defasagem, o Brasil também é assim. Mas com uma diferença crucial: aqui o povo gosta das máfias e os bandidos são idolatrados. Saúde, Educação, Imprensa, Esportes, Carnaval, Poders da república...enfim, não há uma só instituição brasileira imune a atuação das várias máfias tupiniqiuns. E o povo adora.
Desde muito jovem participei e assisti debates altamente acalorados a respeito de quais seriam os direitos e desejos do povo brasileiro.
Li uma infinidades de teses e ensaios defendendo este ou aquele ponto de vista com o objetivo de criar uma sociedade mais justa.
Marxistas, leninistas, socialistas, anarquistas, liberais, direitistas...vi todos os tipos de ideólogos se digladiando, inflamados, em busca de uma formulação intelectual benéfica ao povo.
Coitados. O povo históricamente sempre passou ao largo destas discussões.
Talvez o povo ache mais engraçado eleger um ladrão só para ter a quem xingar enquanto toma umas e outras no boteco da esquina.
- Deputado Fulano....aquilo é um ladrãoooo........Bota mais uma aí pra mim.
- Ué, mas você não votou nele?
- Votei......kakakaka
Creio que seja mais ou menos isso. O povo gosta de eleger os piores elementos possíveis pelo simples prazer de insulta-los depois. Vimos isso na cidade de Magé, na baixada Fluminense, dia desses. Aliás, aprendemos naquele episódio, como em uma lição ministrada por grandes mestres, que dinheiro público não tem dono. Vai ver não tem mesmo.
Diante dos fatos fiquei me perguntando: quem sou eu pra saber mais dos desejos do povo do que ele próprio? E então aderi ao senso comum... Nunca mais vou remar contra a maré.
Ja me decidi. Vou comprar um boteco pra vender cachaça na estrada. A foto do bicho está aí em cima.
Aí, meu Deus.....eita vidinha mais ou menos...

5.2.08

Relendo e aprendendo...Evoé Paulo César Pinheiro

Aproveitei o carnaval para ler um pouco. Na verdade a intenção era escrever. Trabalhar o próximo livro ou coisa parecida, mas nem sempre a coisa funciona como o planejado. Dando vazão ao vício acabei escarafunchando a internet em tenaz perseguição aos textos dos autores que gosto. Naveguei por Darcy Ribeiro, Henry Miller, Poe, Drumond, Quintana e mais um montão de autores responsáveis pela minha construção pessoal. Acabei, no entanto, baixando a âncora sobre os textos de Paulo César Pinheiro. É tão raro encontrar uma poesia como a do Paulo que agente acaba ficando bestificado diante de textos lidos e relidos, remoidos, deglutidos e processados através dos anos.
Conheci a mágica Pinheiriana ainda na adolescência. E digo mágica por que é isso mesmo. São poemas que enfeitiçam.

Há quem o chame de poeta do samba, mas a coisa vai muito além disso. Em um vasto universo de poetas fantásticos Paulo César Pinheiro se destaca com uma elegante simplicidade que chega a ser soberba. É algo que revolve o espírito humano da mesma forma, talvez, que as antigas lavadeiras faziam com as roupas: esfrega, torce e pendura ao sol para aquecer e absorver a luz. Fico com a impressão de que todo o poder das autoridades, o poder de impor regras, crenças e comportamentos, treme. Se abala. É acometido de uma febre terrivelmente mortal diante da retórica poética de Paulo César Pinheiro.

É bom que se tenha, ainda, acesso à autores assim. Do jeito que a coisa anda, em breve a arte será banida do nosso sistema. Proibida mesmo, em prol do entretenimento. Afinal de contas, aos olhos de quem pretende controlar o planeta e o comportamento humano, uniformizando ações e sentidos, não há nada mais subversivo que a reflexão humana.

Nesse ponto, felizmente, a internet ajuda muito. Os blogs, por exemplo, funcionam hoje como aquele velho guardanapo de bar onde muitos de nós escreviamos nossas odes a subversão. E esta continua sendo uma bela forma de reagir à tirania da mesmice, ao pensamento único e a robotização obrigatória. Nossos guardanapos agora estão no ciber espaço e vão para o mundo todo para serem usados por quem bem entenda.

A gente sabe que, como bem disse Vinícius, "a vida vem em ondas como o mar". Escrever é mais ou menos isso. A gente vai salpicando vida através da poesia em vários pontos do mar e ela acaba chegando a outras praias. Contaminando de paixão vital as pessoas que se banham nelas. A poesia de Paulo César Pinheiro é assim. Uma espécie de anti-vírus que nos "contamina" maravilhosamente com a essência da vida. Deixa nossa alma novinha em folha.

24.1.08

Nazismo e racismos em alta

Tem sido desanimadora a leitura dos jornais do dia. Os tradicionais - O Globo e O Dia, aqui no Rio de Janeiro - apesar das várias páginas manchadas de tinta resumem seu noticiário relevante à no máximo página e meia. Os outros, filhotes destes, criados especialmente para o grande público que os lê apenas para trocar de tédio na condução para o trabalho, nem valem apena citar.
"O Globo", por um motivo qualquer que me escapa, apaixonou-se tão perdidamente por temas do tipo aviação civil, Al Gore e coisas afins que é quase impossível encontrar uma matéria que possa se considerar relevante além do arroz com couve do dia-a dia. Já o "O Dia", talvez pra não ficar muito longe de seu concorrente, investe páginas e mais páginas nas futricas novelísticas e nas "Musas do carnaval". Ambos acabam tornando infinitamente mais interessante a leitura das publicidades do que das notícias propriamente ditas. Talvez seja uma maravilhosa estratégia de Marketing e a gente, que não entende nada de mercado, fica feito bobo achando que jornal é para publicar notícias relevantes. Deve mesmo ser importantíssimo noticiar que uma bandeirinha de futebol foi cortada do desfile do Salgueiro ou que uma modelo da moda "arrasou' na Viradouro. Enfim...fazer o que?

Outra coisa interessante na leitura dos nossos principais jornais - Um mais pra elite outro mais para o "povo" - é constatar que ambos vem aos poucos cumprindo o papel de diário oficial do Estado. Chega a ser curioso. Mas a ciência do marketing também deve explicar esse fenômeno. Como leigo, prefiro não meter minha colher nessa história.

Na verdade estou escrevendo isso tudo para dizer que hoje, 24/01, escarafunchando a internet, encontrei uma notícia realmente relevante nos nossos prestimosos jornais : Uma dondoca riquinha extravazou seu racismo na Barra da tijuca. A coisa foi tão aviltante que os próprios frequentadores do cinema onde ocorreu a agressão fizeram questão de tetemunhar contra a deslumbrada.

O grau de relevância dessa notícia reside exatamente na constatação do que vem sendo feito com o Brasil, pois esta é a consequência natural de uma sociedade que se recusa a evoluir, que se recusa a investir no binômio educação/cultura e que, finalmente, insiste em adotar a segregação como estilo de vida por acreditar, movida pela própria ignorância, ser essa uma demonstração de "status".

Dia desses uma empregada foi espancada por bandidinhos ricos na mesma região, o que confirma a anomalia comportamental de uma parcela da nossa sociedade, não por acaso a mais bem aquinhoada.

Tenho cá com meus botões que a coisa na Alemanha tenha começado mais ou menos assim, uma minoria caucasiana se considerando humanamente superior ao restantes dos mortais. Deu no que deu.

Numa época em que o poder estabelecido é disputado entre traficantes e milícias um comportamento desses é temerário.

As balas perdidas, por exemplo, atualmente nos acertando dentro de nossas próprias casas, como ocorreu com meu irmão no sábado passado, podem muito bem vir a ser consideradas um instrumento interessante de controle do crescimento populacional em benefício da raça "Ariana".

Felizmente, no entanto, a coisa ainda se resume à alguns poucos seres ainda despreparados para exercer a condição humana. Sérgio Porto, ou Stanislaw Ponte Preta, autor do FEBEAPÁ, em uma de suas máximas afirmava que um racista deveria ser amarrado às costas de outro racista até aprender a ser gente. É verdade. E de preferência o mais longe possivel da convivência com pessoas de bem.
Eu, particularmente, como palavra de ordem, grito: mais Drumond e menos BBBesta. Mais Chico e menos bate-estaca nos nossos ouvidos. Mais cultura e menos tolice. Enfim...Mais celebração à vida que pulsa em nossas veias.
Assim esses racistas um dia serão tão poucos que terão vergonha de existir.

17.1.08

Pobre Rio de janeiro...

A Cidade Rio de Janeiro tem sido vítima de um processo degenerativo. Algo até então inusitado: o apequenamento.

Dizem que antigamente, nas cidades do interior, oposição e situação nutriam entre si um ódio patológico e se o Prefeito, por exemplo, fosse quem fosse, plantasse mudas de palmeiras para embelezar a Cidade a oposição soltava cabras à noite pra comer tudo. Só pra aporrinhar o Prefeito.

O Rio, apesar de ser capital e históricamente caixa de ressonância cultural para o Páis inteiro, tem sido tratado mais ou menos assim. Na pratica estão apequenando o Rio de Janeiro.

Esse processo se evidenciou recentemente com essa patuscada do boicote ao IPTU. Qualquer criança percebe que trata-se de uma ação orquestrada, que inclusive chega mesmo a ser meio ridícula.

Curiosamente, a classe média que deveria ser formadora de opinião age como uma mera correia de transmissão dos interesses da mídia e reproduz de bom grado o discurso capicioso encrustrado nos edioriais e matérias dos veículos ligados ao sistema Globo. Os jornalistas da casa provavelmente cobram muito caro para prestar este desseviço, mas a classe média o faz de graça dando um tiro no próprio pé.

Na verdade trata-se de uma inversão de valores e de certa forma demonstra como a capacidade intelectual da classe média foi corroída nos últimos anos. Ou seja, aqueles que deveriam determinar a direção do processo social transformaram-se em mera massa de manobra. Em bonecos. Em marionetes manipulados pelo poderoso esquema da indústria da comunicação.

Praticamente todos os problemas enfrentados pelo cidadão carioca, seja quem for o governante, tem sua origem nos desgovernos da União e do Estado. O primeiro - União -por privilegiar banqueiros e impossibilitar que a evolução econômica do País chegue ao bolso do cidadão comum em forma de empregos e oportunidades e o segundo- Estado- pela incapaciade de administrar suas própias responsabilidades, tais como segurança, educação, saúde, lazer, cultura, etc.

A incapacidade de uma parcela importante da classe média de enxergar essa realidade faz com que todo o processo social fique reduzido à um imenso caldeirão de picuinhas. E quem perde com isso é a Cidade como um todo.

Na verdade, a sede pelo exercício do poder faz com que a mídia se defronte de maneira completamente desleal com o poder público estabelecido pelo voto, pois sem responsabilidade alguma definida cabe à ela apenas produzir o caos de acordo com seu interesse particular - O interesse do sistema e consequentemente da mídia.

Brizola enfrentou este mesmo ação estapafúdia aplicada contra o Estado em seus dois Governos. E o fez literalmente. Naquele tempo, entretanto, havia alguma reação e vira e mexe o povo estava na rua, cercando carros de reportagem, aos gritos de " O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo". Quem tem mais idade lembra bem disso.

Seria infinitamente mais justo que a Rede Globo fundasse seu próprio partido e disputasse o poder. Até porque assim poderiamos saber se há realmente em seus representantes alguma capacidade e/ou interesse real em resolver os problemas da população. Apesar de seus indicados para o poder, como os muitos e muitos Ministros das telecomunicações nas últimas décadas terem contrubuído em muito para o atraso do País nesta área, creio que os eleitores até lhe dariam chances eventuais de provar suas teses.

Infelizmente, no entanto, a rede Globo insiste em permanecer apenas como manipuladora oficial de processos políticos, os mesmos que ja nos brindaram com figuras como Fernando Collor de Melo, pra citar apenas um. E o Rio de janeiro perde muito com isso.

Ainda existe, no entanto, alguma esperança no ar, pois a medida que sangra e apequena nossa cidade, seus veículos de comunicação também se tornam provincianos e desqualificados profissionalmente aos olhos do Brasil. Seus leitores vão rareando cada vez mais entre aqueles que dispoe de uma capacidade pessoal de formulação e acabarão ficando restritos aqueles que se sujeitam a ser vaca de presépio.

Na prática o Rio de Janeiro sobrevicerá a todas estas picuinhas, mas o Jornal O Globo e seus congêneres, espero, não terão o mesmo destino.

De qualquer forma é bom reagir desde já, antes que a Rede Globo nos imponha novamente algum de seus lacaios no poder. O Rio de Janeiro, tanto a cidade quanto o Estado, assim como o próprio Brasil, não merece ser refém dos interesses dessa gente pequena e obtusa.

5.1.08

O poema de Maria

A água secou na fonte
O peixe sumiu no rio
O pote ficou vazio
O tempo perdeu as contas

Maria sumiu na bruma
Foi-se embora a última escuna
Que tinha destino certo
Não se ficaram nem restos
Das coisas todas do mundo

Nenhuma moça risonha
Nenhum começo de tarde
Nem mesmo uma lua ao longe
De nada disso se sabe

Nem mesmo um chão havia
A noite era igual ao dia
E a pedra era igual a flor
Pois nada disso existia

E nem sequer a lembrança
De um mero sorriso humano
Isso também se evadira

O tempo, um redemoinho
Estranho e em desequilíbrio
Fundia as coisas futuras
As coisas todas de ontem
De tal forma que as guerras
Medievais de algum dia
Misturavam-se a poesia
Que não se tinha ainda escrito

- Meu Deus, que mundo esquisito...

Gritava inconseqüente
A moça bela e demente
Que nem sequer tinha nascido

Maria pariu um filho
Que ser algum concebeu
E a criança morreu
De sede, de raiva E frio

Mas Maria não havia
Tampouco concepção
Portanto inexistia
O parto, a moça e o varão
Pois Maria de antemão
Era estéril e o sabia
Assim como suspeitava
Que toda palavra dita
Morre logo ao dar entrada
Ao ouvido que acredita

Á noite
No céu escuro
Onde nada se repara
O infinito prepara
As cordas de uma armadilha.

21.12.07

A mágica revelada...

Recebi este vídeo de uma amiga, por email. Pode ser até meio cruel para com a arte da mágica, mas não deixa de ser interessante a revelação de como é feito o truque. Tudo muito simples e talvez exatamente por isso, mágico.

15.12.07

Nunca mais

O sol despenca
Com um ar calamitoso
No horizonte arbitrário
Da minha caverna escura

A noite chega
e sinto falta de mim

Lembro de Cecília
Pois eu também não tinha este sorriso feio

As cicatrizes se espalham pelo meu rosto
Mas nem lembro mais dos cortes
das feridas
do sangue, das tantas dores
Nem mesmo dos arredores
de onde perdi a vida

Já não me lembro mais dos parques
Nem jardins da Prefeitura
Nem mesmo, sequer, me ocorre
Em que vaga criatura
Abandonei os temores
Que me mantinham pregados
Ás coisas todas do mundo

Já não sei mais em que corpos maliciosos
extravasei meus amores,
E já nem sei se eram mesmo amores
Ou vícios da humanidade

Lembro vagamente dos meus sorrisos
espalhados pela cidade
Em cada porta havia
ao menos um sorriso meu

Amava em estardalhaço, eu sei
Berrando gozos fantásticos
Mas isso tudo se perdeu

A noite que chega agora
não me traz melancolia
E nem mesmo os fantasmas dos amores mais antigos

Tudo desaba
Mas é como
se nem tivesse existido
Um tempo qualquer
Anterior a esta noite
Em que o corvo boquirroto
Grita em meus ouvidos
A velha e triste sentença:

Ele me diz “Nunca mais”

Será mera coincidência
Ou o corvo da consciência
- Demônio ou ave preta –
Grita a todos os poetas
Este verso: nunca mais?

Volto ao vinho
para encarar
as tramas da noite eterna
que desce pelo horizonte
escuro da minha caverna

Fecho todas as janelas
Ignorando os umbrais

Conhecendo minhas mazelas
não preciso mais de um corvo
pra me dizer:
Nunca mais.


Vicente Portella

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei.
Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto.
E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Cecilia Meireles

A noite dissolve os homens - Drummond

A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tampouco os rumores
Que outrora me perturbavam
A noite desceu. Nas casas,
Nas ruas onde se combate,
Nos campos desfalecidos,
A noite espalhou o medo
E a total incompreensão.

A noite caiu. Tremenda,
Sem esperança… Os suspiros
Acusam a presença negra
Que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho
Na noite.

A noite é mortal,
Completa, sem reticências,
A noite dissolve os homens,
Diz que é inútil sofrer,
A noite dissolve as pátrias,
Apagou os almirantes
Cintilantes nas ruas fardas.
A noite anoiteceu tudo…
O mundo não tem remédio…
Os suicidas tinham razão.

Carlos Drummond de Andrade

Cocktail Party

Não tenho vergonha de dizer que estou triste,
Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas:
Estou triste por que vocês são burros e feios
E não morrem nunca…
Minha alma assenta-se no cordão da calçada
E chora,
Olhando as poças barrentas que a chuva deixou.
Eu sigo adiante. Misturo-me a vocês. Acho vocês uns amores.
Na minha cara há um vasto sorriso pintado a vermelhão.
E trocamos brindes,
Acreditamos em tudo o que vem nos jornais.
Somos democratas e escravocratas.
Nossas almas? Sei lá!
Mas como são belos os filmes coloridos!
(Ainda mais os de assuntos bíblicos…)
Desce o crepúsculo
E, quando a primeira estrelinha ia refletir-se em todas as poças d’água,
Acenderam-se de súbito os postes de iluminação!

Mário Quintana

14.12.07

Elomar no Rio, neste final de semana

Elomar Figueira Mello estará no Rio nos próximos 3 dias. Quem conhece, sabe a rara oportunidade que isso representa. Pra quem não conhece o Bode Véi... Na minha singela opinião, Elomar daqui a uns 30 anos será reconhecido como um dos maiores gênios da música mundial. Sua obra tem algo de mágico, atávico, árido e lírico, sei lá... Fora que o sujeito é um figura; não se deixa filmar, tem uma produção altamente rebuscada, toca pracarái, mora numa fazendo do interior da Bahia criando bodes (o bode Orelana, famoso personagem do Henfil é baseado em um bode dele). Ficou muito conhecido pela série de apresentações que percorreu o país e resultou em dois discos espetaculares, Cantoria 1 e 2, junto com Xangai, Vital Farias e Geraldo Azevedo. Ano passado conseguiram convencê-lo de que ele devia transforma sua fazenda numa fundação para, entre outras coisas, manter sua obra e editar as partituras de sua produção mais operística-erudita. Com isso, ele voltou a se deixar filmar e fotografar, coisa que a mais de 20 anos ele não deixava fazer... Rústico, com a cara curtida pelo sol da caatinga, contestador da cultura de massa, o sujeito é radical naquele sentido que o Marx dizia. Em épocas de banalização de tudo como a nossa, é um cara necessário, se não como um contraponto, pelo menos como uma bandeira lembrando a gente que existem muitos mundos possíveis. Uma história pra ter uma idéia de como o cabra é peculiar: recentemente teve uma pendenga com um vizinho. Saiu a cavalo e ficou uns dez dias sumido. Isso meu amigo Ricardo Harduim tentando contato com ele pra ver assuntos de agenda e coisa e tal. Quando finalmente conseguiram encontrá-lo, ele explicou o caso; disse que saiu para planejar uma defesa jurídica para o caso com o vizinho. Indagado porque não contratava um advogado, a resposta veio rápida: "como? esses advogados NEM FALAM LATIM!" Lá embaixo tem uns links do youtube pra dar uma olhada. Também tem o site, que aliás, fica hospedado comigo. Tem texto pra caramba, mas vale a pena pelo menos dar uma visita nas imagens do dia-a-dia do sujeito. E também a homenagem que a TV Cultura fará pra ele na próxima sexta.

http://www.elomar.com.br/

RIO DE JANEIRO - Projeto Pixinguinha sábado e domingo, dias 15, 16 e 17 de dezembro de 2007às 18h30min5 reais inteira (isso mesmo!) e 2,50 a meia.
Funarte - Sala Sidney MullerRua da Imprensa, 16Rio de Janeiro, RJTel.: 2215-1668 / 2240-5151
Homenagem na TV Culturasexta-feira, 21 dez, 2007, 21hEm 21 de dezembro próximo, às 21h, a TV Cultura apresentará no programa Mosaicos um especial em homenagem ao grande mestre Elomar, contando com a participação da grande intérprete paulista Monica Albuquerque, juntamente com Xangai, Vital Farias e Geraldo Azevedo.

Texto de Heraldo, HB

30.11.07

Arcos da Lapa - 1

ARCOS DA CARIOCA - Atualmente Arcos da Lapa

1- SÉCULO XVIII
O que conhecemos hoje como Lapa estava fora dos muros da cidade em meados do século XVIII. A cidade propriamente dita estava cercada por morros e alagadiços e sofria de um crônico problema de abastecimento de água potável.
Do alto da serra que circundava a cidade, nascia um rio de nome Carioca, onde os escravos iam buscar a escassa água de boa qualidade, mediante uma marcha de muitas horas. Nessas nascentes, em meados do século XVII, havia sido iniciada a canalização das águas em direção à cidade.
As obras se arrastaram por décadas e foram objeto de muita controvérsia acerca da melhor solução e do melhor trajeto. Em 1721, a canalização chegou até o morro do Desterro, onde viria a ser construído o Convento de Santa Teresa. Entre o morro e a cidade, entretanto, estendiam-se 300 metros de brejos e lagoas, a serem vencidos com a milenar técnica romana de construção de arcos, uma ponte para as águas.
Os Arcos da Carioca foram construídos por braço escravo, utilizando pedra, tijolos, areia, cal e óleo de baleia. O primeiro chafariz, inaugurado no Largo da Carioca em 1723, fez a alegria da população e abriu caminho para a expansão da cidade.
Para sair da cidade passava-se pelo Caminho de Matacavalos e por uma estrada que margeava a lagoa da Sentinela, indo pelo arraial de Mataporcos (hoje Estácio), pelo Engenho Velho dos padres jesuítas e seguindo para os sertões, em direção à Capitania de Minas Gerais. Por este caminho, seguiam viajantes, mascates e soldados, guiando tropas de burros, levando açúcar, carvão e todo tipo de mercadorias. Por ele também vieram as duas expedições francesas que invadiram a Rio no século XVIII.
Ao final do século, o Rio de Janeiro era uma cidade obscura. A cultura portuguesa apresentava ainda fortes traços herdados de dez séculos de dominação árabe. A mulher de então ocupava posição subalterna e desconhecia as cenas da cidade, a não ser aquelas que se passavam à frente de seu balcão. Faziam parte do cenário, os homens que iam pelas ruas, donos da cidade e da política, e uma multidão de escravos, pedreiros, barbeiros ou sem profissão definida, e as negras de ganho ou de casa, também com hábitos muçulmanos adquiridos, roupas coloridas, panos de cabeça e costa, balangandãs.

Arcos da Lapa - 2

2 – SÉCULO XIX

Em meados do século XIX, o Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil, era um cidade majoritariamente negra: dos 130 mil habitantes estimados em 1838, pelo menos dois terços eram escravos. Mantinha também muitos de seus aspectos de atrasada cidade colonial: a limpeza pública era escassa, a iluminação se fazia por raras lâmpadas de azeite de peixe, os esgotos corriam por calhas no meio das ruas e os meios de locomoção limitavam-se a poucos carros, muitos cavalos e os primeiros ônibus de tração animal, as chamadas gôndolas.
Os arrabaldes da cidade iam sendo progressivamente ocupados, especialmente após o desembarque da Família Real portuguesa em 1808, fugindo da guerra na Europa e trazendo consigo inúmeros cortesãos e extensa burocracia governamental.
Nas antigas chácaras e quintas da Lapa, foram surgindo novos e aristocráticos sobrados. O caminho do sul que levava do Largo da Lapa até os bairros do Catete e Flamengo, disputava a preferência das elites com as ruas dos Inválidos, Lavradio e Resende, recém-abertas sobre o aterro do brejo de Pedro Dias, por trás dos Arcos.
A área, que se urbanizava rapidamente, havia triplicado no período entre 1838 e 1888 e, a esta altura, a antiga lagoa do Boqueirão, bolsão de mar que entrava pela várzea e que já permitira navegação para pequenas atracações, tinha-se transformado num pântano, razão pela qual em 1790, o então vice-rei Luis de Vasconcellos fez aterrar o que restava da lagoa, onde construiu o primeiro parque da cidade, o Passeio Público.
O largo da Lapa foi, desde que os padres carmelitas se mudaram para ali em 1810, um dos cenários principais da festa do Divino Espírito Santo, a mais importante da cidade no seu tempo. Durante cinco semanas, o povo se divertia nas barraquinhas armadas no Largo, iluminadas à noite pelo espetáculo dos fogos de artifício.

Arcos da Lapa - 3

3- NA PASSAGEM DO SÉCULO XIX PARA O SÉCULO XX

O Rio de Janeiro passou por uma radical reforma urbana no início do século XX. A administração Pereira Passos construiu avenidas e um moderno porto na antiga cidade colonial, proibiu a criação de vacas e porcos no perímetro urbano, vacinou a população e proibiu mendigos de esmolarem pelas ruas. Promoveu desapropriações e demolições, expulsando da área central inúmeros trabalhadores e despossuídos.
Nesse contexto, a Lapa teve também vários de seus casebres e cortiços demolidos em poucas semanas para a construção da avenida Mem de Sá, o que exigiu ainda o arrasamento do morro do Senado bem como o aterro do que ainda restava das antigas lagoas. Por esta avenida, circulou o mais significativo dos símbolos da modernidade – o bonde elétrico, que levava para os novos subúrbios os operários que o centro da cidade não mais abrigava.
Depois de desativado o antigo aqueduto da Carioca, em 1896, os Arcos passaram a ser utilizados como viaduto para uma linha de bondes para Santa Teresa. Durante a administração Pereira Passos, a Lapa ganhou ares afrancesados, com a arborização do Largo, a recuperação do Passeio Público e a construção do lampadário. É desses dias a última visão da praia da Lapa, engolida pelo aterro da avenida Beira-Mar que seguia por toda a orla, até Botafogo, destinada a receber os elegantes palacetes da burguesia da época.

Arcos da Lapa - 4


4- SÉCULO XX – PRIMEIRA METADE

No primeiro terço do século, a Lapa era chamada de “Montmartre carioca”, seus restaurantes e cabarés abrigavam a noite mais movimentada, as mulheres mais famosas, os malandros mais renomados. A vida noturna, ali, oferecia opções para todos os gostos, ostentando a mais absoluta diversidade. Se numa mesa de café reuniam-se políticos e empresários, ou então intelectuais como Villa-Lobos, Manuel Bandeira, Mário de Andrade ou Rubem Braga, na mesa ao lado, poderia estar uma roda de samba ou a fina flor da malandragem da época.
Antes que a decadência viesse, com a repressão aos bordéis e à malandragem promovida pelo Estado Novo e a proibição dos jogos de azar no pós-guerra, e antes da ascensão de Copacabana, a Lapa vivia noites de puro brilho. O malandro autêntico tornou-se, então, figura de folclore, e o próprio Wilson Baptista rendeu-se e cantou: “O bonde São Januário / Leva mais um operário / Sou eu que vou trabalhar”.
Por trás da aura mágica da boemia e da noite, a Lapa também era zona industrial de pequenos estabelecimentos nos ramos de móveis, confecções, alimentos e bebidas. Até os anos 70, na rua dos Arcos, funcionou o símbolo dessa indústria – a Fundição Progresso, de cofres e fogões.
Pela manhã, enquanto boêmios se dirigiam aos pontos de bonde, a Lapa já ia sendo tomada por caminhoneiros, carregadores, comerciantes que começavam a montar a feira livre na praça defronte aos Arcos. Ao meio-dia, começavam a chegar os chamados “xepeiros” e logo em seguida, a Lapa começava a se preparar para mais uma noite de glória.

Arcos da Lapa - 5

5- SÉCULO XX – O ADVENTO DA MODERNIDADE

No pós-guerra, em meio à decadência da boemia, teve início o arrasamento do morro de Santo Antônio, nos anos 50, com o objetivo de abrir espaços no centro da cidade para pessoas e veículos. A Lapa, era vizinha dos canteiros de obras dos grandes edifícios que surgiam na esplanada e por isso, entrou num processo de deterioração dos velhos centros urbanos. É neste contexto que algumas casas famosas mudaram-se para endereços próximos, como o Restaurante Capela e o Cabaré Casanova. Outras casas escaparam por pouco da extinção, como a Sala Cecília Meireles, que ainda funciona ali.
Na década de 60, surge um projeto governamental para a construção de uma grande avenida que cortasse o Centro de norte a sul, repetindo o feito de Pereira Passos e desafogando a sua antiga avenida Central. No meio do caminho estava a Lapa. O plano mais tarde foi abandonado, mas a Lapa por pouco não sumiu do mapa, pois em poucos anos quarteirões inteiros foram arrasados e inúmeros prédios foram demolidos.
Tal processo de renovação durou até os anos 70. A Fundição Progresso, que havia sido fechada em 1976, chegou a sentir o impacto das marretas antes que uma mobilização de artistas, intelectuais e moradores das vizinhanças a salvasse da demolição, transformando-a em símbolo de renascimento cultural.
Depois do cataclisma dos anos 70, a noite da lapa começou a esquentar de novo. A Sala Cecília Meireles assumiu o papel de principal casa de espetáculos da cidade para música instrumental, com acústica excepcional. O Asa Branca, com pista de dança e show ao vivo, é importante espaço de música popular, repetindo o estilo das antigas casa de espetáculos do lugar. Um circuito de bares e restaurantes de todos os cardápios indica o renascimento da vida noturna do centro da cidade.
Um dos pontos altos da noite da Lapa tem sido o Circo Voador, misto de gafieira e casa de espetáculos instalada numa praça atrás dos Arcos. Voltam a conviver sob os Arcos da Carioca as muitas faces da cidade. Nas mesmas calçadas caminham boêmios e catadores de papel, apressados comerciários lutando por um lugar nos milhares de ônibus que circulam diariamente onde, há dois séculos, pastavam vacas à beira de uma lagoa.
A Lapa foi urbana, suburbana e rural. Depois de nascer de novo sob o signo dos conventos e seminários, teve uma vida das mais atribuladas, de rainha da noite da cidade. Palco da obra mais ousada de seu tempo, os Arcos da Carioca chegam ao Século XXI, cheios de vitalidade, transformando-se novamente em coração noturno do centro da cidade.


Saiba mais
Adaptação do texto original constante da publicação “Arcos da Lapa 1755 a 1991- Um passeio no tempo” – Instituto de Planejamento Municipal – 4ª edição - 1991
Revisão e adaptação: Sônia Maria Queiroz de Oliveira e Natércia Rossi
Colaboração: Edwilson da Silva e Neide Carvalho Monteiro
A publicação "Arcos da Lapa 1755 a 1991 - Um passeio no tempo" está à venda na livraria do Instituto Pereira Passos - Rua Gago Coutinho, nº 52 - Laranjeiras - Rio de Janeiro - tel 2555-8083
e-mail: livrosipp@pcrj.rj.gov.br

29.11.07

O Meu País

Composição: Livardo Alves - Orlando Tejo - Gilvan Chaves Gravada por Zé Ramalho

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo
Um país que crianças elimina
Que não ouve o clamor dos esquecidos
Onde nunca os humildes são ouvidos
E uma elite sem deus é quem domina
Que permite um estupro em cada esquina
E a certeza da dúvida infeliz
Onde quem tem razão baixa a cerviz
E massacra - se o negro e a mulher
Pode ser o país de quem quiser
Mas não é, com certeza, o meu país

Um país onde as leis são descartáveis
Por ausência de códigos corretos
Com quarenta milhões de analfabetos
E maior multidão de miseráveis
Um país onde os homens confiáveis
Não têm voz, não têm vez, nem diretriz
Mas corruptos têm voz e vez e bis
E o respaldo de estímulo incomum
Pode ser o país de qualquer um
Mas não é com certeza o meu país

Um país que perdeu a identidade
Sepultou o idioma português
Aprendeu a falar pornofonês
Aderindo à global vulgaridade
Um país que não tem capacidade
De saber o que pensa e o que diz
Que não pode esconder a cicatriz
De um povo de bem que vive mal
Pode ser o país do carnaval
Mas não é com certeza o meu país

Um país que seus índios discrimina
E as ciências e as artes não respeita
Um país que ainda morre de maleita
Por atraso geral da medicina
Um país onde escola não ensina
E hospital não dispõe de raio - x
Onde a gente dos morros é feliz
Se tem água de chuva e luz do sol
Pode ser o país do futebol
Mas não é com certeza o meu país

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

Um país que é doente e não se cura
Quer ficar sempre no terceiro mundo
Que do poço fatal chegou ao fundo
Sem saber emergir da noite escura
Um país que engoliu a compostura
Atendendo a políticos sutis
Que dividem o brasil em mil brasis
Pra melhor assaltar de ponta a ponta
Pode ser o país do faz-de-conta
Mas não é com certeza o meu país

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

O Brasil, o IDH da Onu e a revista MAD...

Certamente a ONU adotou critérios políticos para a inclusão do Brasil entre os 70 países do mundo com maior IDH. Nada, além disso, justifica tamanha falácia.
Nasci e me criei na Baixada, em Duque de caxias, e posso afirmar que em termos de IDH aquela região esta mais próxima da idade média que do século 21. Por incrível que pareça, no entanto, há muitas outras regiões no País com IDH muito abaixo da Baixada Fluminense

Trabalho com saneamento, e nossa estrutura, não apenas regional, mas nacional, em termos de coleta e tratamento de esgôto, elemento fundamental para o IDH, é sofrível.
No Rio de Janeiro, diga-se de passagem, ocorreram investimentos pesados nessa área no Governo passado. No resto do Brasil, não. Em São Paulo, por exemplo, preferiram estabelecer metas exclusivamente finaceiras para a SABESP, concepção atrasada do ponto de vista social que agora, infelizmente, foi adotada também no Rio de Janeiro. O que significa que o aspecto social, humano e salutar do saneamento foi abandonado.

A divulgação, e pior, qualquer comemoração pelo fato do Brasil ter sido incluido nesta lista é extremamente perigosa. Temo que os Governantes considerem que tenhamos chegado às portas do paraíso. Mas obviamente isso é uma grotesca inverdade.

Há uma canção chamada "O Meu País", gravada por Zé Ramalho, que em um de seus versos diz que o Brasil se recusa a sair do terceiro mundo. É mais ou menos isso. Quem deveria estar trabalhando para uma evolução real da qualidade de vida do povo brasileiro vai passar os próximos meses, ou quem sabe anos, comemorando esta vitória de Pirro. Algo lamentável e trágico.
Isso é coisa de maluco. Por isso vai, aí em cima, a foto do garoto com cara de retardado, Alfred E. Neuman, que era símbolo da antiga revista MAD. Dizem que la nos EUA esse garoto cresceu e acabou virando Presidente.

23.11.07

Portal do tempo

É o último dia de dezembro
Tu te perguntas se estás mesmo pronto
Pensa em quem vai
Dali
Sair correndo
Ou em quem vai
Ficar
Juntando escombros

Em como vão reagir os amigos
Os inimigos
Os desconhecidos
Pensa nos anos todos sucumbidos
E nas vitórias
Nos milhões de planos

E tu te sentas
Calmo
Na poltrona
Bebes de um gole só o desespero
Da esperança
Criada em cativeiro
Tira os suportes
Para próxima semana
Próximo mês
Talvez
Próxima era

Pra se molhar
Os dedos na quimera
E rabiscar na tela outros anos

E se uma bomba explodir
Aflita
Na tua rua ou na tua cama
Saber que a bomba
Mente
Traí
Engana
E que em momento algum ela te habita

Dentro de ti há árvores seculares
Flores diversas
Cores variadas
Texturas próprias
Fontes preparadas
Para fluir até o fim dos dias

E se a bomba parecer potente
Basta sabe-la vil
Covardemente construída
Para impedir a vida
De ampliar seus ramos
Pela nova estrada

Basta saber
Que não há de ser nada
Que os dias vem e vão
Indiferentes

Bombas e balas
Não são suficientes
Para impedir teu sonho em movimento

Abra o champanhe
Comemore a glória
De ver a vida abraçada à história
Atravessando o portal do tempo

Vicente Portella

19.11.07

Amores

Não quero mais te falar de amores
As dores e as cores das flores
Se adentram
Se fundem
Se encontram em um mesmo tom
Leia, amor, os príncipes
De Maquiavel e Exupéry
Um anjo é mau o outro é bom
Dê seus ouvidos aos loucos
Todas as flores do mundo são poetas mortos
Poetas são meros amontoados de amores vãos
Leia, amor, os cânticos
As odes
E os nobres poemas de um autor qualquer
Leia, amor, os Clássicos
Mas não vá se perder, por favor, na paixão dos românticos
Meu mal (eu não sei) me parece de amor
Pode ser vaidade
E vai a idade chegando e a coisa se agrava
(Perdão, eu roubei para mim este verso do Afonso)
- Um poema escrito pra ti com um verso roubado -
Eu sou mesmo um sonso
Mas você
Não será nunca a moça
Que está no portão
Assim como eu não serei
Jamais um menestrel
Nem Milton
Eu sou um qualquer indivíduo da plebe
Que ama, que chora, faz sexo, tem febre
E paga aluguel
Perdoe amor, sou fraco
Em geografia da fome Josué de Castro
Expõe menos dores que aquelas que trago no meu coração
Eu nunca mais te componho em poema ou canção
Não faço
Mais nenhum verso pra ti
Quando os amores acabam
Desabam
E não deixam rastros
Os padres (eu acho)
E os bispos de um modo geral
Não padecem de forma alguma deste estranho mal
Perdoe, amor sou prático
Meu lado lunático não mais me permite compor poesias pra ti
Adeus, amor, um abraço
Agora eu já disse à você quase tudo
Não tudo, mas quase
Meus versos me aprazem
Já posso partir



Vicente Portella